Divergente

O planeta Terra existe há quatro bilhões e meio de anos, mas, no entanto, o cérebro começou a se formar há apenas 100 milhões de anos. A natureza levou todo esse tempo para formatar a complexa e maravilhosa interação humana. O primeiro, neurologicamente falando, Homo Sapiens, conhecido como a Eva Mitocondrial – a quem estudos genéticos mostram que todos na Terra são relacionados – viveu há duzentos mil anos. Não sabemos ao certo a razão da evolução de nossos cérebros, fator que nos diferenciou de muitos parentes ancestrais, mas o nosso DNA não nega que, mesmo com todas as conquistas humanas, ainda continuamos a ser uma específica variação de uma espécie de macaco africano que evoluiu no Vale do Rift. Isso somos nós, mesmo com toda nossa grandeza de civilização, mesmo com nossa falsa impressão de superioridade: somos apenas e tão somente seres que evoluíram física e psicologicamente… um acaso da natureza, e não “os escolhidos”. 

Curiosamente, esses pensamentos iam por minha cabeça numa noite fria em Londres. Os termômetros marcavam zero graus, eu olhava a lua branca pela janela que, apesar do frio, estava aberta – não consigo mais dormir com a janela fechada, não importa se lá fora está congelando – e o perfume da noite invadia o quarto. Silêncio, o momento era aquele em que o relógio – essa invenção tão nossa – pula de um dia para o próximo. Nesse exato instante, minhas memórias voltaram ao passado, e me lembrei de Pedro. Curiosamente, Pedro passou rapidamente por minha vida, era eu uma criança-adolescente e ele um colega de classe. A primeira imagem que voltou foi de seu sorriso, depois de um momento nosso, em que o encontro em uma ‘vendinha’ perto da escola. 

Como tudo em mim, minha primeira ação mental foi compreender o que me fez lembrar de alguém tão do passado. Concluí que fora um artigo que eu lera a respeito de racismo e sobre como as mulheres ‘brancas’ encaram os homens ‘negros’. Pedro era um belo jovem negro. 

Pedro entrou em minha vida como tudo, inesperadamente. Ele era extrovertido, simpático, com um sorriso – que eu costumava chamar de sorriso em lá maior – e o dom para e fazer pensar em como se pode conviver com diferenças aparentemente irreconciliáveis. Costumávamos sair da escola e correr para comprar refrigerantes e sucos – nem sempre ele tinha dinheiro, mas ele ia mesmo assim, nos acompanhando, contando estórias, fazendo brincadeiras e sorrindo. 

Pedro gostava de arte, musica e história, não apreciava o futebol. Isso fora responsável por algumas das perguntas difíceis que ele enfrentara. Como um jovem negro não joga futebol? Como ele podia apreciar e conhecer tanto da história e de músicas – as clássicas eram suas favoritas – e não andar pela rua,s perdido em ‘peladas’? As perguntas não ofendiam Pedro. Ele encarava as pessoas e respondia: “Eu sou assim.” 

Lembro-me de uma discussão entre ele e outro colega de classe sobre suas pretensões universitárias. Ambos ambicionavam a advocacia, e o rapaz não se conformava com a pretensão de Pedro. Pedro sorria e questionava: “Qual a diferença? “. A resposta era sempre a mesma: “Você sabe qual é.” 

Num dia de sol, Pedro e eu estávamos sentados na mureta da escola. Eu o observava com curiosidade, afinal, ele parecia tão feliz, tão certo de quem ele era, do que queria e acima de todas as observações sem sentindo que nossos colegas faziam. Eu, ao contrário, me sentia infeliz, inapropriada, embora a mente estivesse repleta de certezas e planos. Peguei em sua mão – ele não a retirou da minha – queria sentir o calor que emanava dele, como se aquele brilho dos brancos dentes e a pele que reluzia – como se fosse um pedaço de madeira precioso –  pudessem me dar algum tipo de força, de resposta. Nosso silêncio era curioso. 

Passada meia hora – essa foi minha sensação – não consegui conter minha curiosidade, minha ansiedade por compreender aquele menino-homem. Perguntei a ele a razão de aceitar tantos comentários inoportunos e ofensivos, como se ele fosse inferior de alguma forma aos outros. 

“Entenda, pequena escritora…” – eu gostava de escrever e ele lera muitos dos meus textos – “Eu sei o que os assusta, também sei quem eu sou e qual será meu futuro… As vozes que me apontam lugares para estar, coisas a fazer, não me tocam. Não são essas pessoas e suas palavras que farão com que eu me enxergue de forma diferente, seja no espelho, seja no dia a dia.” 

Eu sorri, ele continuou: “Essa coisa de cor de pele, de ser negro, branco, amarelo, vermelho e quantas outras cores você quiser usar para classificar uma pessoa, é um subterfúgio, um tipo de defesa dos fracos contra aqueles que são diferentes. A cor da pele é apenas uma delas, talvez por ser fácil de visualizar, pelo contraste ou mesmo pelo fato de que aqui, nestas e em outras terras, pessoas com cor de pele semelhantes foram tratadas como escravas, como objetos. Não sei, essa superioridade que alguns sentem em relação a outros só pode indicar um tipo de incompreensão da evolução humana. Decidi não me importar e continuar a me esforçar para atingir meu objetivo, nunca considerei a cor de minha pele um obstáculo ou um tíquete para facilidades. Sou um ser humano, com origem igual a de todos os humanos na Terra. Assim me vejo, assim sou.” 

Como parecia simples para ele. Como deveria ser simples para mim. 

Anos mais tarde, descobri que ele se formara advogado pela São Francisco. Estudara muito, esforçara-se dobrado e, no final, seguira para estudos nos Estados Unidos, onde se casou, teve dois filhos e passou a integrar a banca de um prestigiado escritório de advocacia. Tentei contato, ele respondeu, enviando a foto da família. Todos tinham o mesmo sorriso franco, iluminado. Na carta, ele disse que ainda enfrentava comentários de colegas, as pessoas lhe perguntavam sobre futebol e samba. Mesmo vestindo um terno impecável, com toda a postura nobre que ele sempre teve, ainda enxergavam primeiro a cor de sua pele e, agora, somavam a isso sua nacionalidade, pois não viam o quanto ele era semelhante. Semelhança do DNA, da espécie, diferença do indivíduo. 

Pedro me perguntou se eu permanecia com aquele ar de dúvida, questionamento e decepção. Sorri quando li essas palavras… Sim, eu continuava a ter dúvidas, a questionar e a me decepcionar com a natureza humana. No entanto, aprendera que o verdadeiro senhor da minha vida sou eu, não há ninguém mais. E que o silêncio, alem de ser meu maior confidente, também era meu maior mestre. Nele aprendera mais sobre quem eu era, mais sobre a humanidade que me cerca e muito sobre DNA, mente e crenças. Aprendera a desmistificar a diferença, encarando-a como saudável expressão da natureza. Entendera que as limitações são sociais e não pessoais, e que talento vem ou se cria. 

Enviei a carta com minha foto. Não tinha um filho naquela época, ele veio depois. Pedro respondeu, com um pequeno álbum de fotos da cidade na qual vivia, um pequeno urso onde se lia “I Love NY” e dizendo que eu precisava ter pelo menos um filho. Assim, talvez, aos poucos, a Terra viesse a ser um local que compreendesse as diferenças e não apenas se esforçasse para tolerá-las

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