Quando escolhemos a mentira

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Lembra sua infância? E daqueles momentos que você escolheu mentir do que dizer a verdade para seus pais sobre aquele incidente onde algo precioso foi quebrado? E na escola, lembra quando a professora pedia a lição de casa e você ‘mentia’? Mentir faz parte de ser humano. Talvez esteja relacionado com o senso de autopreservação, talvez seja apenas a natureza humana, ou ainda algo inexplicável. Certamente os psicólogos que eventualmente leia o texto terão explicações mais acuradas sobre o porquê mentimos.

Não são essa mentiras do dia a dia, que podem afetar relacionamentos e ate mesmo custar empregos sobre o que quero falar. Estou falando de mentiras que nosso cérebro prega sem que percebamos. 

Conheço uma mulher, inteligente, bem-sucedida, mãe de um menino com capacidades intelectuais incríveis. Tenho a sorte de conhecer também sua estória e família. A vida abriu oportunidades para que a intimidade do núcleo familiar abrisse para mim um desses momentos onde a mentira que repetimos para nós mesmos parece ser fruto de uma necessidade de aceitação em um ‘clube’.

Não importa que essa mentira afete muito pouco outros. Ela afeta sim a percepção que essa jovem mulher tem dela mesmo, seu relacionamento com o parceiro e, acima de tudo seu comportamento como mãe. E certo que ela nasceu de um relacionamento conturbado, e seus pais passaram por diferentes fases saindo da paixão ate a total falta de capacidade de permanecerem juntos. No meio de todo trauma, uma menina era protegida pelos avos maternos.

Por duas décadas, senão mais, essa jovem mulher foi paparicada, mimada, e suportada por eles. A mãe, depois de se separar, precisou de muito tempo para se reencontrar. No entanto, algo que ela nunca conseguiu achar dentro de si foi o papel de mãe. Durante vinte e poucos anos que as duas – mãe e filha – viveram sobre o teto dos avos, o relacionamento entre elas foi muito mais de irmãs.

O tempo passou, muito mudou. A jovem amadureceu, casou-se, descasou, casou-se de novo, teve um filho e descasou de novo. Admirei a capacidade que essa jovem mulher teve de não se sujeitar a nenhum relacionamento abusivo ou de dependência. AO longe acreditava que, mesmo tendo uma infância complexa e confusa – ela só reencontrou o pai quando tinha cerca de 15 anos. Ela poderia criar uma vida saudável e equilibrada para o filho que decidiu ter.

E aí vem a mentira. De repente, o mundo dela mudou de cor. Os avos, muito mais a avo, deixaram de ser os pontos mais importantes. A mente transformou a mãe ausente em alguém que ela passou a pintar como um verdadeiro exemplo a ser seguido. O pai, alguém completamente imerso num mundo de fantasias e mentiras, passou a ser o exemplo de paternidade. Todo o passado foi esquecido, as lições desaprendidas.

Nesse mundo de fantasia, o filho da jovem mulher passou a ser a eterna lembrança do pai abusivo e começou a receber a agressão incontida agora. De longe pode-se perceber que anos de frustrações, de viver uma vida confusa onde a avo era também a mãe, onde tudo girava em torno da tentativa de que essa jovem mulher tivesse o melhor que uma família poderia oferecer. Os limites do real e do imaginário se mesclaram criando um ambiente hostil para a criança. O novo parceiro, com ideias antiquadas (quem sabe no fundo olhando para o menino não via o rival que ele substituiu) de como criar um menino, começou a ajudar na criação de um universo de medo.

E as mentiras continuara. Declarações de amore infinitas ao filho que a jovem mulher estava marcado dia após dia com surras e palavras. O medo estava sendo instalado no coração e na mente do menino (de 4 anos) sem que ninguém, a não ser sua bisavó, entendesse que os limites do real e do imaginarão haviam se perdido. Como se não fosse suficiente, o avo materno do menino, entrou uma cruzada de agressões e palavras hostis. 

Agora, a jovem mulher, que foi protegida, amparada, amada e ouvida, não conseguia dar o filho o mesmo suporte. A criança, vivendo em um mundo de adultos sem coragem de enfrentar seus demônios, pintando sempre um quadro róseo e mentirosa dos relacionamentos entre eles, se voltaram contra o elo mais frágil da cadeia.

A mãe que nunca foi mãe e o pai que nunca teve quis ser pai, passaram a ser expertos em criação infantil. A mãe, sempre protegia, permitiu que todos voltassem seus demônios e assombrassem o próprio filho. A ninguém era permitido nenhum comentário. A bisavó tentou, mas foi humilhada, agredida (verbalmente) e colocada em um canto. A dor que ela sentia ao ver o desespero do menino que não compreendia de onde vinha tanta agressão.

Chinelas, tapas, beliscões, trancar uma criança no escuro deveriam ser atos puníveis pela lei. O dano que isso ocasiona, e você não precisa ir longe para ver isso, basta olhar a sua volta. Jovens mentindo para si mesmos, se embriagando, perdidos e mal-amados. Jovens que irão um dia usar dessa capacidade que nosso cérebro tem de criar um passado perfeito. Um passado onde eles foram amados, respeitados, educados, e não torturados.

Amor não é uma pilha de presentes no aniversario e no Natal. Amor é respeitar a criança como um ser humano, dando a ela limites, respeitando sua individualidade e acima de tudo, amando-a exatamente como ela é.

Nota: Não me venham os velhos e manchões de plantão (não importa se homens ou mulheres) me dizer que eles apanharam na infância e estão aí, vivos e felizes. Eu respondo a eles, olhe bem dentro de você, deixe de lado as mentiras que seu cérebro vive lhe contanto e analise se seu passado não interferiu em quem você é hoje. Agredidos seguem dois caminhos: se tornam agressores ou continuam a ser agredidos pelo resto de suas vidas, acreditando que aquele ´o único jeito de amar e ser amado.

Image: https://themagpieproject.org

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