“Lockdown” Diário – Dias: 56 – 66

A vida continua a mesma. As atividades internas as mesmas. Parece que entrei em um ciclo de repetições, como assisti em algum filme de ficção cientifica onde os passageiros de uma nave são levados a reviver dia após dia o mesmo momento no tempo. Meus momentos não são feitos de manutenção de warp drivers ou de reviver memorias de um passado distante. Não. Minhas repetições são cozinha, limpar e quando da tempo escrever. Tenho tentado pintar, mas ando um tanto enfraquecida de vontade. Pintura para mim é um tipo de relaxamento, substituto da meditação – para a qual sinceramente não tenho paciência. 

Em dois meses de isolamento li 69 livros, assisti três series com quatro temporadas e 23 capítulos cada uma, li jornais (online) e escrevi 200 páginas (em três diferentes livros), pintei um quadro e cozinhei pratos de seis diferentes culturas. Não fiz planos, o que parece curioso. Planejar sempre foi meu forte. 

Planejo apenas para ver meus planos serem tomados por um furacão e jogados em alto mar para que se tornem impossível de serem implementados. O que os furacões não sabem é que sempre tenho mais de uma opção disponível. Isso mesmo, Plano A, B, C… até o Z. Cresci sempre tendo que buscar opções para aquilo que eu desejava, mas não estava sob meu controle total obter. Transferi o hábito de esperar derrotas, mudanças de rumo e catástrofes para meu planos de adulta, onde os riscos são muito maiores, veja a tal da pandemia que enfrentamos agora e não estava em meus planos. 

Mas, mudando de assunto. Parei para pensar em como a aparência realmente engana. Uma vizinha, daquelas com as quais você cruza de vez em quando e, por algum motivo ela simplesmente levanta os olhos e parece estar vendo alguém atrás de você, mas não você, me surpreendeu quando compartilhou um vido de um famoso “conspirador” sobre o corona vírus. Apesar de sempre preferir não me meter em confusão com os ingleses – eles não são nada educados quando contrariado – decidi que deveria compartilhar (ela usou o grupo do WhatsApp do condomínio para compartilhar o tal vídeo) um vídeo e alguns artigos explicando o interesse financeiro que o tal “doutor” tinha em espalhar mentiras e teorias da conspiração. 

Que confusão me meti! Não fui a única a crítica, outras pessoas vieram a comentar como o vídeo era falso e aqueles que acreditavam no tal médico absolutamente irresponsáveis. Foi terrível assistir a esgrima entre pessoas que como eu, acreditam em ciências e ela, que aparece ser adepta de algum obscura religião sem deus, mas com muitos “achismos” existenciais. Enfim, ela agora simplesmente corre para fechar a porta de seu flat quando abro a minha, um situação que não pude evitar. 

Por outro lado, enquanto escrevo tenho uma boa visão de meus vizinhos, não todos, mas dois que possuem crianças em casa. Fico abismada como eles parecem não estar levando a sério a pandemia, saindo de casa todos os dias sem qualquer proteção, recebendo visitas, enfim, quebrando o isolamento sem nenhum pudor. Consigo entender a razão. Quando o governo usa de linguagem dúbia no intuito de levar as pessoas a voltarem a trabalhar – especialmente os mais pobres – porque as empresas que doam para seu partido estão enfrentando perdas de bilhões, o povo começa a pensar que nada é tão sério quanto a mídia afirma.

Por falar em mídia, temos por aqui uma das medias mãos corruptas, covardes, compradas que eu já tive a oportunidade de acompanhar. Ninguém pare ter suficiente vontade de contestar com fatos as mentiras e erros que o governo está fazendo ate o momento. Parece um bando de profissionais sem nenhuma integridade que resolveram criar um mito ao redor de Boris Johnson. Mito que cada dia se mostra menos convincente. Fico absolutamente surpresa pela quantidade de mentiras que aparecem nos jornais e sites, alguns inclusive com selo do próprio governo. O Reino Unido se transformou em uma Monarquia de Banana – Banana Monarchy – e estamos sendo governados pelos interesses de alguns poucos extremistas (da área financeira, chamados capitalistas de catástrofe) cujo único interesse é o quanto de dinheiro eles podem acrescentar aos bilhões que já possuem. 

A número de morte por aqui ultrapassou 60 mil. No início, quando o vírus estava ainda sendo considerado doença de terceiro mundo, o governo escolheu a opção que, de acordo com sua visão, teria o menos impacto econômico. Essa opção levava em conta a morte de idosos, que segundo um dos assessores do primeiro ministro, era um preço que valia a pena pagar. E o Reino Unido está pagando. A fim de evitar que o sistema de saúde – NHS – quebrasse pela demanda, eles dispensaram os idosos que ocupavam camas nos hospitais para asilos sem qualquer proteção para os outros idosos, testes para saber se aqueles que estavam sendo liberado eram portadores do vírus, ou proteção para aqueles que cuidam dos idosos. Enfim, enviaram eles para morrer e espalhar o vírus entre outros idosos.

Suécia e Reino Unido optaram por esse modo de enfrenta o vírus, sinceramente, se você olhar o número de mortes que ocorreram nesse dois países, você vera que essa opção só serve para eliminar pobres e idosos. E uma mentalidade onde aqueles que não contribuem para a economia são vistos como um peso e passível de serem eliminados. E a cultura da inutilidade do idoso, do doente, do desabilitado, do fraco.  

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