“Lockdown” Diário – Dias: 31 – 37

Nova semana, mesmo cenário. Esta semana não foi diferente das anteriores, apenas uma chuva aqui e ali, mas todos os dias tiveram sol e céu azul, pelo menos por algumas horas. Da janela da cozinha, enquanto preparo o café da manha, vejo pessoas passando de um lado para o outro. Algumas tem como companhia seus cães, outros filhos, a maioria solitária.

O hábito de correr em Londres me faz pensar em solitários tentando gastar energia antes de retornar para uma casa vazia. A ilha da Bretanha – Inglaterra, Gales e Escócia – tem nove milhões de pessoas solitárias e esse número só tem aumentado. Londres detém o ranking de cidade mais solitária do mundo. Isso tem sido um problema para o sistema de saúde (NHS) e comunidades. Pessoas solitárias são mais propensas a desenvolverem problemas mentais e doenças que muitas vezes os levam a morte.

O “lockdown” apenas aumentou essa solidão. Existe ainda outro agravante, a violência doméstica. No Reino Unido, uma 1 em cada 4 mulheres e 1 em cada 6 homens serão afetados por abuso doméstico durante sua vida. Duas mulheres são mortas por semana e seis homens por ano, mortes causadas por abuso doméstico. No entanto, este ano, com a chegada do corona vírus, o número de mulheres mortas aumentou consideravelmente. Em apenas duas semanas de “lockdown”, 16 mulheres foram mortas.

Outra dificuldade enfrentada pelo povo é conseguir acesso a alimentação. Londres, sendo uma cidade grande, não reflete o que ocorre em regiões do interior. Muitas vezes, um vilarejo de seiscentas ou mil pessoas está totalmente afastado de grandes redes de supermercado. Os pequenos comerciantes locais ou fecharam ou não conseguem cumprir a demanda. Muitos estão habituados a fazer compra em cidades vizinhas em seus carros, outro escolhem o delivery, mas tendo que ficar em casa diminuiu em muito a oportunidade de sair e comprar alimentos. Tudo piora quando pensamos nos idosos e pessoas com qualquer deficiência física ou mental, que precisam fazer parte de um cadastro do governo para receberem cestas básicas. Muitas não receberam, outras receberam alimentos que não são saudáveis ou adequados. O governo Britânico não prima pela qualidade de seus sistemas de informática e muito menos pela organização e planejamento. O povo está assustado.

No lugar onde moro, muitos idosos são obrigados a deixar suas casas e seguir ate uma grocery próxima para obter alimento. Por sorte, o dono da grocery – paquistaneses -tem mantido as prateleiras cheias e os cestos de frutas e verduras sempre abastecidos. No entanto, a viagem para comprar requer paciência. Somente duas pessoas por vez podem entrar na loja. Tudo para evitar o contágio. 

De minha janela vejo minha vizinha aproveitando a área comum da casa para andar ou jogar bola com o filho. Ambos usando máscaras e luvas para evitar contato com áreas que podem estar contaminadas por outros. Outros vizinhos, com maior sorte, usam seu quintal (garden) para tomar sol, brincar ou fazer um churrasco. O britânico ama um churrasco que na verdade e muito mais parecido com o barbecue americano do que com o churrasco brasileiro. 

Na imprensa, dia sim e dia não, o governo aparece para desmentir as notícias que apresentam o Primeiro Ministro como alguém preguiçoso, incompetente e acima de tudo preocupado mais com sua vida privada do que com a saúde de seu país e povo. Mentiras e mais mentiras são espalhadas tentando esconder a inabilidade do governo em prover testes, equipamento médico e políticas de contenção do vírus, assim como planejamento para a saída do lockdown.

A primeira bomba aconteceu no domingo, quando o The Times, publicou uma reportagem contando como o Primeiro Ministro esteve ausente de cindo importantes reuniões sobre o planejamento de como o país iria enfrentar o vírus. Essas reunião são chamadas COBRA e ocorrem em casos de ataques terroristas ou quando o país está sob qualquer ameaça. A reportagem foi uma tremenda bomba. Outro ponto acrescentado foi que o Reino Unido não está adicionando ao número de mortos pelo covid-19, pessoas que morreram em casa de idosos ou em casa. O tumulto está grande, e ate agora o primeiro ministro não apareceu para se pronunciar.

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