“Lockdown” Diário – Dias: 24 – 30

Escrever sempre me proporcionou o conforto de trabalhar em casa. A confortável cadeira estofada, a grande tela do computador e o belo jardim visto da janela – onde pássaros voando de um lado para outro, esquilos correndo pelos muros e telhados – serviam de suplemento para a inspiração e descanso nos momentos de tensão em que faltavam ideias ou palavras. Boa parte de meus anos em Londres, forma passadas neste cenário. Filho indo para escola, marido para o trabalho e eu aproveitando o silencio da solidão – não doída, mas agradável – escrevia, pintava, ouvia música e me embriagava com cappuccinos.

Tudo mudou com o lockdown. Não tenho mais minhas manhãs de liberdade, de estar em silencio ou rodeada de sons. Meu filho estuda em casa – universidade online exige muito mais do aluno do que a presencial – o marido se senta no improvisado home-office – o real é onde trabalho – mergulhando em calls e e-mails, Zooms meetings e planilhas. 

Meu momento de introspecção para escrita acontece quando coloco o fone de ouvido e ligo em alguma radio – heart ou kiss – e mergulho nos sons das músicas que são o hit na atualidade. Nesse mundo de isolação, escrevo. Sonho e penso, com o mesmo fervor e paixão que antes. 

Imagino como a extrema direita, os ditos pregadores do livre mercado, do falso dogma de que se você trabalhar duro vai conseguir o sucesso. Leio nos jornais do mundo como cada líder tem tentado resolver essa crise sem ter que mudar muito o que esta por aí. Começo a perceber que isso e impossível. O que vejo e a tendência para extremos”: bons e ruins. Em alguns países, a mão do líder forte, macho, poderoso, invencível, está virando a roda da sociedade em direção a ditatura. Seja nos Estados Unidos, Hungria ou Brasil, o vácuo que lideranças deixaram foi tomado pela ideia de que o passado era muito melhor, especialmente o passado de ditaduras militares, perseguições ideológicas, imposições religiosas. Isso preocupa, assusta muito mais do que o vírus.

DO outro lado, vemos governos – a maioria deles gerenciado por mulheres – onde a ideia de coletividade, suporte mútuo, responsabilidade governamental e acima de tudo solidariedade, supera a ideia inicial de que é melhor preservar o forte deixando o fraco perecer. Fraco? Sempre questionei quem decide quem merece viver ou morrer, ter uma vida digna ou não. Quem?

Religião não tem sido um grande alento nesses tempos. Desvairados pregadores juram ter a cura para algo que sequer entendem. Na Pascoa, muitas igrejas recusaram fechar suas portas com medo de perder sua principal fonte de renda para outros que prometem salvação a preço mais baixo. Incrível como pessoas podem acreditar que elas são especiais porque frequentam uma igreja, acreditam em um ser de faz de conta e numa estória onde ressuscitações, curas são mais importantes do que a solidariedade, responsabilidade e respeito.

Por aqui, o Primeiro Ministro deixa o hospital exatamente no dia no qual se comemora a Pascoa cristã. Todos gritam que foi encenado, que sua doença não foi real. Estaria ele apenas se escondendo, fugindo da responsabilidade do que acontece no país? Conspirações de todos os tipos rodam as mídias sociais como fogo em mato seco. Torres de 5G estão sendo queimadas, chineses agredidos e trabalhadores da área de saúde – de porteiros a médicos – morrem todos os dias como resultado da falta de planeamento do governo Britânico.

Falando em planejamento, me lembro de quando aterrissei neste país e percebi, após um ano, como ele era semelhante ao Brasil. No Reino Unido não se planeja, vive-se de apagar fogo correndo contra o tempo e o relógio para salvar projetos, vidas, dinheiro. Corrupção e algo socialmente invisível, pior apesar de se ver como uma democracia, o Reino Unido e na verdade uma ditadura do voto. Se um partido ganha por larga maioria o direito de governar, não há nenhum tipo de lei que possa ser usada para escrutinar seus atos. E uma ditadura de fato, onde o PM faz aquilo que quer, Ponto.

E exatamente o que está ocorrendo agora. Em um momento de crise como o que estamos enfrentando, Boris recusa a reabrir o parlamento. Trancou-se em uma casa de campo e está se recuperando ao lado da amante gravida – ele ainda não se divorciou legalmente. Enquanto isso, o país está perdendo mais de duas mil pessoas exato morrendo por dia – os dados oficiais estão comprometidos pela falta de claridade na contagem dos mortos – médicos e enfermeiras enfrentam dilemas como ter que escolher quem recebe um ventilador que poderá salvar a vida, ou não. Decisão que deixara marcas para sempre.

Mas, o pior está acontecendo em asilos – care homes – onde idosos são despejados após saírem do hospital sem terem sido testados para saber se portadores do Corona vírus, e contaminam tanto os que trabalham no local como outros idosos. Está ficando cada vez mais difícil negar a política do governo, a cada decisão – ou indecisão – a escolha pela imunidade do rebanho que afirma foi descartada, parece continuar ative. Alguns vão além, dizendo que o governo esta deliberadamente matando idosos, deficientes, autistas, e outros que podem representa um peso para a economia – eles não são produtivos do ponto de vista do mercado – e deixando a epidemia correr solta, reduzindo assim a população que necessita do NHS – sistema de saúde –  e outros benefícios públicos.

Todos estão cada vez mais próximos de romper com o lockdown – Londres resolveu ter semanas de sol deixando o povo desesperado para sair as ruas, visitar parques, ir ao pub – e as crianças sofrem pela falta de contato com amigos. Recentemente meu vizinho completou oito anos, teve duas festas virtuais via Zoom, recebeu presentes de todos os vizinhos e uma faixa desejando um feliz aniversario foi colocada na frente de seu flat. 

Nós seguimos esperando pelos testes que nunca vem. Pelo PPE – material usado em hospital pelos médicos e enfermeiras para proteção – que nunca chegam. Pela decisão de para de contar mentiras e assumir as verdades, as falhas, os erros e, com coragem construir um plano para tirar o país dessa confusão em que esta.

No mundo alguns países tentam sair do lockdown apenas para verem o número de casos voltarem a aumentar. Cientistas discordam sobre o uso de máscaras, políticos receitam medicamentos sem nenhuma base cientifica, religiosos prometem curas milagrosa, e pessoas confusas procuram liderança e encontram apenas vácuo e oportunismo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s