“Lockdown” Diário – Dias: 15 – 23

28/3 – 5/4

Aos poucos as pessoas estão se habituando a nova rotina. Acordar, tomar café da manha, aqueles que trabalham em casa, seguem para seus home-office, os que tem filhos dão início as rotinas escolares – o que nem sempre e fácil ou simples.

Educar os filhos em casa seria simples se a educação britânica não fosse tão rígida e movida a regras que acabam por coibir criatividade e independência. Os professores têm controle absoluto do que os alunos escrevem, leem, discutem e acima de tudo, nenhum insight que parece divergir do curriculum e bem-vinda. Para minha sorte, meu filho está na universidade – que convenhamos segue os mesmos preceitos da educação secundaria, cada vez que meu filho responde a um exercício com mais informação do que solicitada ele e punido (perde nota).

Do meu lado, aproveito as manhas para escrever e as tardes para ler, isso intermediado pelo tempo que dedico a cozinhar e cuidar da casa. Sim, isso faz parte de minha rotina, mesmo com alguma ajuda de eu filho e parceiro, ainda cai sobre meus ombros a maioria do que é preciso ser feito em casa. 

A mesa de onde escrevo me permite observar o mundo além da janela. Muitos pássaros cruzam em busca de material para construir seus ninhos, esquilos correm disparados pelo gramado a procura de material para suas tocas onde em breve receberão novas vidas. Bumblebees tem visitado minhas janelas, ainda fechadas pois o vento frio contínua presente. O que não ouço mais são os aviões cruzando o céu, carros na rua, nem mesmo sirenes de ambulâncias cortam o silencio ou o coral dos pássaros. Ate tragédias observei. Como o corvo que ficou preso pelo pescoço em uma arvore e morreu lentamente, perdendo minuta a minuto a vida pela falta de ar.

Observo também meus vizinhos. Alguns que possuem um jardim privado, aproveitam os dias de sol que decidiram fazer parte de Londres desde que o ‘lockdown’ começou. Fico imaginando as duas crianças que vivem nos fundos do terreno, em uma casa que costumamos de chamar de ‘casa dos hobbits’, como eles estão enfrentando esse tempo sem amigos, sem atividades extraescolares, sem as festas que a primavera traz.

Alguns dias fiquei sabendo que o aniversario do pequeno menino que vive no flat ao lado do meu faz aniversario no dia 8. Fiquei pensando em como fazer tudo mais divertido, vou fazer uma faixa de ‘feliz aniversario’ e comprar uma lembrança. Sei que a mãe dele vai fazer do dia o melhor que ela puder, mas sempre e divertido quando ganhamos presentes inesperado.

Os jornais falam apenas da corona vírus, tudo mais ficou em segundo plano. Mesmo a Pascoa, um dos feriados mais importantes no Reino Unido, parece ter sido esquecido. Supermercados estão pedindo para que compre ovos de pascoa. Crianças estão enfrentando a possibilidade de não terem sua caça ao ovo este ano. Os parques continuam recebendo pessoas para exercícios, e percebo que a proibição transformou o que era comum, considerado simples, em alvo de desejo. No último domingo muitas pessoas quebraram o isolamento para tomarem sol na beira do rio Tamisa. A polícia tem sido rigorosa, algumas vezes em excesso devido a falta de regras. 

Alias, a confusão que o governo criou nessa epidemia apenas mostrou que a opinião que tinha sobre o britânico é verdadeira. O povo não sabe planejar, lidar com o inesperado e votou por um governo incompetente, para dizer o mínimo. A ideia que se poderia usar “herd immunity’ para sair na frente de outros países da crise criada pelo vírus, acabou estourando nas mãos daqueles que a pregavam. Agora, ninguém, quer ser o responsável pela ideia. Todos no governo negam terem sequer pensado nisso. Mas, em tempos de Mídia Social, cada comentário que fizeram para a mídia foi recortado e passado de Time Line em Time Line. Fica impossível negar que a ideia partiu do governo e por algumas semanas esteve como principal política governamental.

Dentre todos os desarranjos, o fato de não terem entrado no consorcio europeu para a compra de equipamentos, não ter respondido a telefonemas e e-mails de empresas oferecendo ventiladores e testes, trazem para a discussão se o governo não continua insistindo na política. 

Para ficar mais interessante, o Primeiro Ministro que está com o vírus, parece não estar apresentando melhoras. O que vai ser do país, ninguém sabe. No continente, Espanha e Itália recolhem seus mortos e a experiência de que ações tentando conter epidemias com o objetivo de manter a economia custarão vidas, muitas vidas.

A União Europeia está se debatendo na tentativa de tomar para si o controle de políticas e ações durante e após o fim de epidemia. No entanto, nacionalismo tem sido uma barreira enorme. Ninguém sabe ao certo o que vira depois. Possivelmente uma das maiores crises econômicas dos tempos modernos, com perda de empregos, GDP e vidas. Existe, no entanto, a esperança que algo de positivo se levante das chamas. Um maior respeito pelo ser humano, o entendimento que a mudança climática está afetando nossa relação com a fauna e flora do planeta, que necessitamos ações coordenadas mundialmente para evitar catástrofes.

O que realmente me parece claro é que a melhor solução para o mundo seria se todos os extremistas de direita e esquerda voltassem para debaixo das pedras onde se escondiam e um tipo moderno de estado social tomasse lugar dele em conjunto com uma união planetária. Sonho, logicamente que é um sonho, mas…

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