“Lockdown” Diário – Dia: 14

27/03/2020 

Sexta-feira é dia de festa em Londres. Na primavera muitos trabalhadores deixam os escritórios e seguem para bares, restaurantes e pubs par ao Happy Hour. Bebe-se muita cerveja, vinho branco e coquetéis; é um momento de relaxamento e afogar todo o estresse da semana em pints de álcool. Não nesta sexta. Hoje as pessoas que ainda têm emprego e podem trabalhar em casa estão fechadas e isoladas, apenas conectadas com seus colegas via Internet. Famílias estão separadas avos não podem visitar seus netos. Os lindos dias de céu azul e sol estão sendo aproveitados pelos policiais, trabalhadores essenciais, entregadores de encomendas, e os poucos que ousam sair para a hora de exercício permitida.

O lugar onde moro é relativamente silencioso. Agora, no entanto, o silencio aumentou incrivelmente. Pela manha não tenho mais os inúmeros aviões cruzando os céus, nem carros na avenida próxima. O que temos agora são sons de pássaros, corvos, raposas, ambulâncias e carros de polícia cruzando de um lado para outro da cidade.

Quando a campanha toca para alguma entrega. A rotina de colocar luvas, máscara de proteção e pedir par ao entregador deixar o pacote na porta de entrada tornou-se realidade. Procurar por sabão para máquina de lavar, desinfetante, pasta de dente e absorvente higiênico requer horas na internet pesquisando lugares que ainda tem esses produtos no estoque. Ate mesmo a Amazon não tem mais nada a preço acessível e pronta entrega.

Meu marido saiu um dia para comprar pão e leite (encontrou) e volto rapidamente para casa. Meu filho está apavorado e pediu que o pai não se exponha desnecessariamente. Observo meus vizinhos para ver se eles estão bem e temos um grupo no WhatsApp que permite contatar um ao outro para oferecer ajuda se necessário. No entanto, é solitário.

Nunca pensei em enfrentar algo assim. Minha imaginação nunca criou um momento como este, onde mentiras e mais mentiras são ditas por governos (o britânico em particular) deixando o povo sem saber o que fazer, em quem confiar. Onde presidentes são incapazes de socorrer seu próprio povo, preferindo salvar a economia a pessoas. Momento onde pessoas que acreditam em eugenia tem o poder de decidir políticas que podem levar a morte centenas de milhares de pessoas. 

Não da para dizer que não estou com medo. Estou. Medo do futuro que vai sair desta pandemia. Medo de como as pessoas parecem ser incapazes de aprender e continuam insistir em suas irracionalidades, racismos, xenofobias, desprezo pelo menos favorecido. Tenho medo que após a morte, a sequência será mais morte, mais ódio, mais distância e mais medo um do outro. Estou apavorado com o futuro porque o presente tem me mostrado que as pessoas acreditam no ditado que diz: “ignorância é uma benção”. Não ignorância não é uma benção, ignorância mata. 

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