“Lockdown” Diário – Dia: 03

16/03/2020

Segunda-feira normal em casa. Levantei, tomei café e arrumei a casa como sempre. Meu filho dormiu até mais tarde depois de passar boa parte da noite jogando videogame. Meu marido foi para o trabalho normalmente. Ele estava bem resfriado, assim como nosso filho, mas nada parecia muito grave.

A medicação Neurofen + vickvaporuby estavam ajudando a manter as narinas abertas e a tosse sobre controle. O que mais incomodava eram os espirros. Fiquei pensando se não contraímos algo durante uma apresentação no Royal Institution of Great Britain, onde fomo assistir a palestra de uma astronauta que participou do lançamento do telescópio Hubble. Estava lotado e tinha muito gente tossindo. Mas, continuava frio em Londres, mesmo com a aproximação da primavera as pessoas continuavam a usar pesados casacos, cachecóis e luvas. Resfriados no inverno são comuns e com a aproximação da primavera as alergias ao pólen intensificam.

O dia transcorreu normal, escrevi, preparei refeições e li um pouco, sempre ouvindo música. Sempre achei que o fato de trabalhar em casa era um privilégio, pois podia interromper quando quisesse e tomar uma xicara de cappuccino ou çay. Mas naquele dia comecei a perceber que era mais que um privilégio, era também uma forma de manter distância do que estava acontecendo do lado de fora da porta.

O Primeiro Ministro britânico deu um pronunciamento pedindo que as pessoas com sintomas ficassem em quarentena por sete dias, e que hábitos de higiene como evitar tossir nas pessoas, lavar as mãos e manter-se longe de quem apresentava sinais de estar com resfriado ou doente. Pensei em como seria difícil manter as pessoas em casa. Depois do inverno, quando o calendário marca o primeiro dia de março, a maioria dos britânicos sai as ruas comemorando o sol, a temporada de passeios no parque, muita bicicleta e flores nos jardins. A primavera e o verão são recebidos por aqui como velhos amigos que estiveram muito tempo distantes e retornam não apenas com notícias, mas presentes e guloseimas.

Screenshot do site do jornal The Guardian

O mais interessante é que os números de casos estão aumentando significativamente na Itália, e o vírus parece estar se espalhando sem fronteiras pelo mundo. Muito não acreditam que seja algo perigosos. Outros afirmam que apenas idosos correm o risco de contrair a doença de uma forma mais grave, outros começam a espalhar falsas informações, incluindo destilando ódio contra a China e seus habitantes. Uma rede de notícias falsas começou a espalhar que o vírus foi criado pelo governo chinês. Teve alguém que inclusive sugeriu que o vírus veio de uma pessoa que comeu “morcego cru.” 

Lendo as notícias pelo mundo, percebi que a maioria das falsas notícias vinham dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Brasil, eram dessa nacionalidade – pelo menos o idioma que falavam e as países de onde postavam – que continham o maior número de compartilhamento de informações incorretas.

Quando meu marido retornou do trabalho a vida continuou normalmente. Minha família tem o hábito de tomar pelo menos dois banhos por dia: um pela manha antes do trabalho e outro a noite antes de ir para cama. Lavamos a mãos frequentemente quando usamos o banheiro, mexemos com alimentos crus, latas de lixos ou saímos de casa. Sempre temos na bolsa lenços bactericidas para limpar as mãos e não gostamos de comer em trens e metro (chamado de tube por aqui). Assim, higiene não seria um ponto de entrada do vírus em nossa casa. 

Naquela noite dormimos tranquilos.

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