“Locakdown” Diário – Dias: 04 – 07

17/03/2020 – 20/03/2020

A semana passou sem nenhum incidente, pelo menos para minha família. Todos aqui em casa superaram o que realmente pareceu ser um resfriado comum – sem febre, com bastante coriza e alguma tosse – e o dia a dia foi como sempre. Meu filho estudando para o curso de Astronomia e Ciência Planetária que estava fazendo na Open University. Meu marido trabalhando em uma empresa em Paddington. Eu, em casa, escrevendo, trabalhando no Photoshop e cozinhando. Preparei pizza caseira naquele dia e os sinais do desespero do povo por aqui começou a aparecer.

Boatos que um “lockdown” iria ser imposto a partir de segunda-feira, levou os desesperados britânicos as compras. Eles esvaziaram os supermercados – não deixaram nenhum papel higiênico, produto de limpeza (bactericidas, sabão para lavar as mãos), e latarias. Os supermercados foram pegos de surpresa com o aumento da demanda e durante a semana muitos não conseguiriam repor produtos em suas prateleiras aumentando ainda mais o pânico.

Screenshot do jornal The Guardian

Pelo bairro onde moro, Chiswick, as coisas pareciam mais civilizadas, eu fui ao supermercado e consegui comprar alguma coisa. No entanto, percebi que faltavam diversos itens e muitas prateleiras estavam vazias. Como tenho o hábito de comprar os produtos pesados: lataria, arroz, macarrão, farinha, produtos de limpeza, apenas uma vez por mês, o estoque em casa estava normal e não vimos necessidade de comprar mais. Apenas quando precisei de mozarela ralada foi que finalmente percebemos que as coisas estavam complicando. Minha única preocupação eram frutas e verduras, leite e queijo. DO resto era fácil resolver. Tenho máquina de fazer macarrão e farinha suficiente para fazer, máquina de fazer pão, assim estes itens ausentes da prateleira não preocupavam. 

Meu marido chegou na sexta-feira informando que iria trabalhar remoto (em casa) ate dia seis de abril. As notícias de número de mortes na Itália, Espanha e Alemanha começaram a traze cada vez mais perto o medo.

Mesmo não sendo uma família com muito contatos interpessoais. UM manto de medo, preocupação e pânico começou a tomar conta. Eu em particular comecei a me preocupar em ter alimento do gosto de meu filho nos armários. Meu filho ´uma excelente pessoa, mas seu autismo transforma pequenos obstáculos em grandes problemas e alimento ´algo importante para ele. 

AO mesmo tempo que o medo do desabastecimento aumentava – não era mais possível conseguir um slot para delivery de compra em casa no supermercado que sempre fazia minhas compras – e muitos dos produtos usados em no dia a dia como pão fresco, carnes, ovos e sucos começaram a desaparecer e não retornarem as prateleiras.

Ainda era possível comprar comida para entrega em casa, mas a maioria de nossos restaurantes favoritos estava fechando por causa da doença. O número de mortes aumentava em toda Europa e as ações do governo britânico pareciam um tanto erráticas e confusas.

Foi aos poucos ficando claro que o governo estava apostando em poder controlar o vírus deixando que ele infectasse o maior número de pessoas possível. Ate mesmo um comentário sobre esse ponto “vamos encarar o vírus e se algumas pessoas idosas morrerem, o que fazer?” – tradução livre de algo que apareceu nos jornais por aqui – começou a deixar as pessoas nervosas. A falta de equipamento para as pessoas que trabalham no sistema de saúde publico do reino unido – que veio a se descobrir foi ocasionado pela recuso do governo de comprar mais equipamento porque estes eram caros) levou o NHS (National Health Service) a começar a abrir o jogo sobre o que estava acontecendo.

A preocupação aumentou, assim como a paranoia. Se o governo havia decidido que era aceitável deixar pessoas morrerem por causa do vírus, o primeiro pensamento é: “E se for eu?” Egoísmo e autopreservação falam mais alto nesses momentos.

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