“Lockdown” Diário – Dia: 01

14/3/2020

O dia amanheceu ensolarado. Entretanto, nuvens apareceram e transformaram a esperança de um dia festivo em possibilidade de chuva. Como todo aniversario, desde que mudei para Londres, planos para alguma atividade que me daria prazer. Hoje vamos visitar uma exposição sensorial sobre a vida de Van Gogh. Existia preocupação sobre a tal corona vírus, os jornais de 8 de março falavam de uma terceira morte ocorrida no Reino Unido enquanto a china continuava a batalhar por salvar vidas. 

Imagem do site do jornal The Guardian

Tomamos café da manhã e seguimos para a estação de trem perto de casa. Meu marido e filho estavam resfriados – espirros, tosse, mas sem febre – eu ainda não. Tomamos cuidado de usar luvas no trem – sem máscaras – e ter na bolsa um gel desinfetante. Chegamos na estação Waterloo. O movimento parecia ter reduzido uns 20%, as pessoas continuavam a fazer fila no Starbucks e correr para pegar trens para outros locais no país.

Seguimos pelas ruas, o sol tentando passar pelas nuvens, um chuvisco fino acompanhando o sol, e pessoas – locais e turistas – passeavam em Southbank – menos do que o usual, mas o suficiente para preocupar – seguimos para o local do evento. As recepcionistas não tinham máscaras ou qualquer proteção. Algumas centenas de pessoas estavam no local – montado para o evento – e ninguém parecia muito preocupado com o tal vírus.

Deixamos o local após duas horas de visitação onde tivemos contato com diversas pessoas de múltiplas nacionalidades e faixa etária. Fome, estávamos com fome, seguimos para o restaurante especializado em comida tailandesa, estava lotado. Seguimos o procedimento de higienização de nossas mãos e escolhemos os pratos. Meu filho e eu não estávamos confortáveis. As mesas eram muito próximas, um grupo de pessoas a minha direita – uma mesa com seis ou oito indivíduos – bebia coquetéis e um rapaz (por volta dos trinta anos) gritava palavrões sobre o pânico que o mundo estava criando por causa de um simples resfriado. Deixamos o restaurante e seguimos para casa. Mal sabíamos que seria a última vez que sairíamos de casa. 

A noite comemos pizza e assistimos Netflix. Meu filho ainda estava resfriado, o Reino Unido ainda nãos estava em pânico, mas o tal vírus começava a se aproximar da ilha. Muitos menosprezavam, comentando que os especialistas não sabiam de nada. O governo insistia que estava observando os acontecimentos de perto. No Twitter, o comentário que circulava era do perigo da inação diante de um vírus que havia contaminado 80 mil chineses e causado a morte de quase três mil. Jornalistas e ‘especialistas’ vinham a televisão dizer que a taxa de mortalidade era de ‘apenas’ 1% e a maioria seriam pessoas com mais de 70 anos e com problemas de saúde.

O resto de nos olhava de um lado para o outro, confusos, mas confiantes que, em um país de primeiro mundo, o governo sabia o que fazia (não confio em governos). E esperamos.  

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