Azul

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Sob a luz direta do sol seus olhos pareciam duas turmalinas ovais, duas perfeitas pedras azul. Turmalinas, nem safiras ou diamantes, foram as pedras preciosas que Chris escolhera para comparação. Por quê? Por não ser o valor, mas a cor, a transparência, a pura convicção de que elas representavam perfeitamente aos olhos dele. Ela os examinava cuidadosamente procurando sinais sutis de quem ele era, do que pensava. Sinais aparentemente próximos a superfície e ainda escondidos. Sinais de seu senso de humanidade, a capacidade que ele deveria ter para ser gentil, carinhoso, compreensivo, completo. Seria ele tudo isso?

O rosto era um registro da vida vivida. Escrito em cada ruga, cada pequeno ponto, escondia-se a história dos relacionamentos experimentados, a frustração e as conquistas de sua vida profissional, os sonhos que ele nunca teve coragem de perseguir. Chris se perguntou quantas lembranças ele tinha detrás daqueles olhos azuis brilhantes.

Lembraria ele de seu primeiro beijo? Ou da época em que o espirito de rebelião apareceu em sua vida, compelindo-o  a seguir o instinto em vez da razão ou as expectativas dos outros; indo além dos limites do dever, daquelas pequenas ações que todos esperavam dele – colocar o lixo para fora, limpar o armário – para abraçar o mistério de seus desejos. Teria sido ele tão desafiador? Chris cruzou as pernas, observando o homem sentado na poltrona marrom do Café. Quem era ele?

Suas roupas não estavam na moda, mesmo que de boa qualidade. Ele era provavelmente uma pessoa conservadora, alguém ligado a tradições, regras, conceitos. Prático? Possivelmente, alguns elementos permitiam que se concluísse que cautela era um atributo importante para ele. O guarda-chuva, o casaco leve, o computador. Chris sorriu, por que todos ao seu redor estavam usando computadores?

Ela virou a cabeça para olhar todas aquelas pessoas imersas em suas telas brilhantes. “Nós parecemos enfeitiçados …” Ela voltou para o homem de olhos azuis. Algo a estava provocando naqueles olhos, como se permitissem a ela alcançar as camadas mais profundas dele, aqueles olhos a desafiavam a fazê-lo. “O que ela veria se aqueles olhos olhassem para mim?” Como se os pensamentos tivessem fluido dela para ele, os olhos do homem a estavam observando, ela podia sentir as ondas quentes de curiosidade alcançando-a. “Eu não acho que fiz nada para chamar sua atenção!” Chris estava certa, ela não tinha.

O homem com os olhos de turmalina azul retornou ao seu trabalho. Chris decidiu trocar de lugar, mudar para uma poltrona onde ela pudesse observá-lo, sem que a recíproca ocorresse. Algumas horas depois, ele colocou o computador na bolsa, tirou os óculos, checou o telefone e saiu do café. Chris queria segui-lo, para entender mais sobre o que havia visto dentro daqueles olhos, mas não era lógico, nem educado seguir uma pessoa que você nunca conheceu antes. “Mais tarde, quem sabe o que o futuro trará?”

Chris concentrou-se em seu trabalho, os planos para uma nova escola para pessoas com dificuldades de aprendizagem estavam tomando forma. “Você é um sonhador.” A frase ecoando voz de sua mãe. “Você é um fracasso!” Agora era o pai dela estava falando assertivamente. “Você é …” Ela queria que aquelas vozes parassem de dizer o que ela era. Como eles saberiam? Sua relação com eles sempre foi superficial, cheia de regras e obrigações, deveres e penalidades; o amor não fazia parte da barganha entre Chris e sua família. “Eu não gosto disso. Por que lembrar de palavras cruéis quando tenho outras, as certas, para lembrar” Sua mente retornou ao homem de olhos azuis. “Eu me pergunto se ele me entenderia? E eu, eu o entenderia?”

Semanas se passaram, os passeios sem destino de Chris na cidade se tornaram mais frequentes. O outono estava chegando, folhas marrons, amarelas e alaranjadas cobriam os caminhos que ela costumava percorrer. Naquela manhã, um nevoeiro havia recebido Chris; agora, meia hora depois, através da janela do quarto, ela podia ver o vento fazendo as árvores dançarem. O sol estava tímido, se mantendo- atrás das nuvens cinzentas escuras. “Nós teremos o sol, mais tarde …” Sua rotina matinal foi rapidamente concluída. Ela estava pronta para sair.

Saindo pelo portão, ela virou à direita na rua, depois novamente à direita para atravessar outra rua. Próximo a estação de trem o caminho estava coberto de folhas. Ela sorriu. “Eu sempre achei que as folhas de outono se assemelham a espuma de um mar imaginário. Um mar outonal. Cruzando a linha do trem, seus pés amassaram as folhas enquanto a caminho do parque próximo. Finalmente, o sol apareceu, sua luz refletida na superfície do lago que dois cisnes brancos cruzavam silenciosamente entre os reflexos de nuvens, parecia que o mundo havia virado de cabeça para baixo. Era um cenário poético, Chris foi tomada pelo sentimento de paz.

Andando em silêncio, sem fones de ouvido, o único som era de seus pensamentos. Ela não sabia se outras pessoas eram como ela, mas suas vozes-pensamento tinham músicas diferentes. Hoje, eles estavam sérios, assertivos e solenes. Atravessando o parque, ela pegou a passagem subterrânea. “Eu preciso voltar para as aulas de ioga. Sinto falta dos alongamentos. ” (O pensamento foi disparado por um folheto perto da grade na passagem subterrânea). Ela estava agora na Duke Avenue, onde ela adorava ver como as árvores se preparavam para o inverno, perdendo as folhas.

Finalmente, na rua principal, as pessoas iam e vinham, ela podia sentir o aroma acolhedor de café quando passava por uma cafeteria. Ela notou as vitrinas de roupas de inverno, as flores da estação nos baldes da barraca de flores, as pessoas com copos de chocolate quente ou café seguindo para o trabalho. O céu ainda estava parcialmente azul, no entanto ela podia ver algumas nuvens escuras vindo em sua direção. “É melhor ir a algum lugar onde eu possa escapar da chuva.”

A Starbucks não estava lotada. Dois ou três homens estavam sentados em seus computadores, com fones de ouvido e microfones falando de negócios. Chris pegou uma palavra ou duas aqui e ali. “Um macchiato de caramelo, por favor? … Em uma caneca, OK?” Não, ela se recusa a beber de um copo de papel, o papel muda o sabor do café. Alguém se aproxima dela na fila, um homem, mas ela não se virou para ver quem era. Pagou o café e procurou uma mesa onde poderia abrir seus iPad e recomeçar o trabalho que vinha a tempos enrolando. Aproveitando a oportunidade ela olhou para o homem que ficara atrás dela alguns segundos antes.  Com mistura de surpresa e curiosidade ela percebeu que o conhecia: “Ei, é o homem com olhos azuis de turmalina!”

Chris escolheu uma mesa num canto, perto do banheiro. Era um lugar onde havia tomadas para seu iPad e uma parede mantendo um lado dela protegido de outras pessoas, proporcionando ao mesmo tempo uma boa visão das poltronas. “Eu aposto que posso dizer onde ele vai se sentar.” Para sua surpresa, ele se sentou ao lado dela. Ambos usavam seus computadores, telefones e fones de ouvido. Ele estava digitando furiosamente no computador, ela tentando descobrir sobre o que ele escrevia. Uma ou duas vezes seus olhos se encontraram – quando Chris virou para pegar um novo carregador na bolsa, ela rapidamente quebrou o contato.

Cerca de uma hora depois, Chris estava imersa em sua nova história. Ela estava navegando em um lugar onde tudo era diferente de hoje e, ao mesmo tempo, equivalente. Seu novo personagem era corajoso, mas era uma mulher. As mulheres corajosas geralmente não têm muita sorte. Quando ela levantou os olhos da tela, dois olhos azuis estavam agora a observando. Ela sorriu, um sorriso no meio do caminho entre a timidez e polidez. “Você está escrevendo.” Não era uma pergunta, o que deveria ela dizer. Ela sorriu, ele perguntou: “Você trabalha com palavras?” Agora ela teria que responder.

“Eu sou um escritor.” Ele não pareceu surpreso.

Uma escritora. Bem, eu sou um editor e revisor. Se você precisar dos meus serviços … O homem lhe passou um cartão. Chris ficou surpresa, levando dez segundos para perceber que ele estava lhe oferecendo seu cartão de visita.

“Obrigada!”

Ele levantou se despedindo com uma voz suave e não muito profunda. Ele lembrou Chris de um professor de matemática em sua escola primária … Luiz. Ela sorriu. “Talvez, talvez eu termine o meu livro, e então irei ligar para você para me ajudar … talvez!” Palavras ditas por sua voz interior.

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