Fotos: instantes, emoções, registros

Fotos sao instantes, quantas pessoas não usaram essas mesmas palavras antes. Analisando fotos de meu passado na Turquia, conclui que alem de representarem instantes, elas também estão carregadas de sentimentos que escondemos atras de sorrisos ou lagrimas. As fotos que selecionei para este post representam momentos difíceis ou imprevisíveis durante minha jornada na Turquia. Em alguns momentos, a situação era tão tensa e desconfortável que a única coisa que eu desejava era correr para casa e esconder em algum lugar escuro longe de todos.

Conviver com um desconhecido é um passo complicado, mas o que ninguém vislumbra é que esse desconhecido depois de um mês acompanhando cada momento de sua vida deixa de ser um desconhecido para assumir o papel de crítico. De repente você que viveu grande parte de sua vida sob o domínio do pai e do marido, agora está sob o domínio de alguém que foi contratado para trabalhar para você.

A sociedade turca, como a brasileira, é fortemente patriarcal. A mulher acredita que não se casar e tiver filhos está incompleta. Mesmo as profissionais vivendo na moderna Istambul ou Ankara, quando tiram seu salto alto e a maquiagem, entregam-se ao sonho do provedor-protetor que substituirá a figura paterna e assumirá o poder de controlar sua vida. Talvez seja essa a razao que tantas mulheres sul-americanas se sintam atraídas pela Turquia e o homem turco.

O Brasil também é socialmente patriarcal. Râncido lembrete que evolução tecnológica não implica em evolução intelectual e social. Recentemente no Brasil, muitas mulheres levantaram a voz para diminuir, rechaçar, recusar com veemência o feminismo. Em pleno século 21, igualdade não tem significado para estas mulheres. Elas não querem ser iguais, elas não querem a responsabilidade pelos seus fracassos e assim entregam o direito a comemorar o sucesso a seus protetores-controladores. Na Turquia não é muito diferente, basta observar nas mudanças de vestuário ocorridas nos últimos 8-9 anos de dominância de Erdoğan e seus discípulos extremistas e fascistas. Mulheres que haviam abandonado o hijab voltaram a usá-lo ou porque aceitaram os pagamentos oferecidos para que o fizessem ou por temerem julgamento dos homens aos quais elas sentem dependência emocional.

Foi essa luta entre minha auto-consciência e a tentativa constante de coerção e submissão que tornou alguns momentos absolutamente insuportáveis. Minha ânsia por realizar o projeto ao qual havia investido minhas parcas economias e tempo começou a ser insuficiente para controlar a frustração. Ser eu mesma era um afronta ao poder masculino do guia que me acompanhava. Minha presença ou melhor minha entrada em ambientes públicos onde rostos se viravam, bocas comentavam e sorrisos apareciam incomodavam como se eu, propriedade e submissa, estivesse retirando parte de sua masculinidade.

Essa necessidade imatura de possuir – mesmo que metaforicamente – e controlar as ações e desejos do sexo feminino, sempre foi o maior desafio que enfrentei. Homens negam as mulheres desejos – mesmo outras mulheres negam essa possibilidade do desejo feminino – quando rotulam como ‘vagabundas’ ou ‘fáceis ’ aquelas que seguem seus desejos. Homens e mulheres consumidos por contos de fadas hollywoodiano, entram em guerra contra mulheres que desejam algo mais do que ser esposa, mãe e profissional nessa ordem.

É irremediavelmente cansativo discutir, explicar ou mesmo ponderar usando ciência que mulheres e homens possuem as mesmas capacidades físicas e intelectuais. Não existe sexo frágil, o que existe são egos mal formados, alimentados com ficções religiosas, tradições sociais e conveniências.

Em cada foto que estou irritada, procurando controlar a vontade de gritar. Meu pensamento incontrolável como e, passava da inconveniente realidade para a certeza do poder de ser em meu DNA e mente. Era eu mais que uma estrangeira viajando pelo país, passei a ser curiosidade e posse. Ao recusar ambas etiquetas, me transformei na rebelde, na disponível para acusações e insultos. Mulheres mais velhas, algumas da mesma idade que eu, consideravam irresponsável, para não dizer pecaminoso, o fato de estar acompanhada e um homem que não era alguém próximo. Poderia dizer que esses pensamentos existiam por estar em contato com os tradicionais habitantes do interior, onde as liberdades sociais demoram mais a criar espaço, no entanto, o contato com intelectuais, inclusive homens com doutorado em Oxford, serviu apenas para confirmar que a sociedade turca, tal qual a brasileira, não acredita que uma mulher possa ter independência, conhecimento, energia, capacidade para empreender um projeto sozinha. Quantas vezes não fui deixada de lado em uma conversa, relegada a ouvinte. No final, minha ‘rebelião’ insistindo em participar do diálogo foi vista como insulto.

Foram o ápices desses desgastantes momentos que cada foto registra. Tantos outros ficaram fora dos registros ou porque me isolei na solidão ou simplesmente o momento foi perdido. Educação e liberação de dogmas religiosos sao os passos necessários para a mulher receber respeito e mesmos direitos que o homem.

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