20 anos

Quero morrer ao vinte anos, porque aos 20 tudo parece possível. Aos 20 todos nós somos socialistas ou comunistas, com nossa bóinas a la Che e camisetas vermelhas. Não nos importamos com os métodos, mas com os resultados – mesmo quando eles não são tão bons quanto nos contam. Somos agora donos de nós e de todos a história passada.

Não importa que mortes ocorram, nem que a fome seja o destino da maioria da população; queremos igualdade, aquela igualdade que não existe em nenhum lugar. Nossas propostas são as mesmas de nosso pais. Ah! Como dizia a música, a rebeldia de nossos pais que se transformou em segurança de classe média – burguesia como gostamos de gritar. Interessante ver como aos 20 tudo é magicamente perfeito, nosso herói pode estar preso, mas é porque as ‘elites’ estão contra eles e nós. O mundo é um caso perdido de ganância e controle, como seria bom poder levantar aqui a mesma bandeira com a famosa foice e martelo – representando os trabalhadores braçais – que agitaram outras terras e transformaram monarquias, impérios, repúblicas em, o que mesmo? Oligarquias, ditaduras onde os pobres continuam a ser explorados pelos ricos só que agora são socialistas (comunistas) não é bom ver o mundo assim.

Não quero chegar aos 40, pois de repente posso perceber o quanto professores e colegas muito mais privilegiados que eu usaram meu desapontamento com o mundo para me fazer crer que um passado envolto em mortes e poder foi na verdade uma luta de libertação. Não adianta tentarem me convencer que meu herói cometeu erros. Eu grito na rua por sua liberdade, afinal, como herói do povo ele não merece estar na prisão por bobagens como dinheiro e tráfico de influencia. Ele fez isso tudo belo povo! Fez por nós, o povo!

Quero morrer ao vinte onde o amor acontece e ‘re-acontece’ com a mesma intensidade que o ciclo menstrual. Nos dias modernos o amor pode inclusive pular de um gênero para outro sem muita preocupação com o coração alheio. Afinal, quero liberdade, de ser, de estar, de me rebelar, o que não quero e a responsabilidade de tudo isso. Sou jovem, tenho-a vida inteira pela frente!

Mas quero morrer aos 20. Onde meu amor é infinito, não enquanto dure, mas pelo tempo que desperte interesse no Instagram. Onde meu protesto não esta embasado na realidade, nem na lei – algumas vezes injustas outras parcial, e outras apenas cega – nem na experiencia do conhecimento. Mas é apenas um regurgito de antigos mantras que aqueles de vinte tiveram antes de mim.

O mundo precisa mudar, eu sei disso aos vinte, como saberei disso aos 40. Mas a mudança que precisa acontecer não é uma volta ao passado de guerrilhas, bóinas e marchas. O futuro é de união entre nações, de comprometimento em salvar o planeta no qual vivemos, a busca de soluções para o crescimento populacional, para alimentos, e poluição. Aliás, é um futuro que acontece hoje.

Não é tempo para os sonhos dos vinte anos, nem as ideologias do século passado. Os perigos são reais. A possibilidade de extinção é real. Sinceramente, decidi que não quero morrer aos vinte.

Não, morrer aos vinte é covardia, seria deixar para traz o eco de todos aqueles que tiveram vinte como eu. Não, quero viver e interferir no futuro que vou experimentar. Quero um futuro para crianças brincarem no jardim, adolescentes se enamorarem, jovens de vinte usarem boinas e terem pôster de Che – no quarto, na Time Line, no smartphone – quero chegar aos trinta trabalhando para criar uma comunidade melhor – onde valores e fatos pesem mais que ideologias e tribalismo. Quero meus quarenta com mudanças, um mundo onde as pessoas contam, a renda é melhor distribuída e a fome foi quase extinta.

Quero a poluição deixando do planeta, o consumismo reduzido a pequenos sonhos – não a desesperada necessidade de parecer bem no Instagram, para os amigos ou familiares. Quero um estado social onde o bem estar do povo e tão importante quanto o GDP e os ricos pagam um justo imposto, como eu.

Quero muito mais que heróis salvadores, não preciso ser salva aos cinquenta. Quero ensinar aos jovens que estudar e importante, não porque isso o fará milionário, mas porque o ensinara a usar a mente para decidir sobre sua vida sem precisar de milagres – sejam religiosos ou políticos. Quero ter a capacidade de ampliar meus horizontes sozinho, deixando a bolha na qual me fechei ao vinte explodir, permitindo a entrada de ar fresco, novas oportunidades.

Quero quebrar tabus e tradições, ter filhos ou não, ser sólida ou fluida, sem me preocupar com o ar que respiro e a água que bebo. Quero saber mais do que sei aos vinte, muito mais do que saberei aos 60. Quero tudo e nada, porque o que quero esta aí a minha disposição.

Aos 70 quero a paz de uma cadeira de balanço mas com acesso ao mundo. Quero viver para sempre e morrer num instante. Aos 80 fico pensando no que deixei de fazer e recorro as palavras para transformar as brechas em minha vida. Aos 90 muitos não acreditam que ainda estou aqui, eu que queria morrer aos 20, continuo aprendendo o que é viver.

Aos 100 finalmente decido que está na hora de descansar. O mundo mudou profundamente. Empregos são algo do passado, IA e robôs estão por todo lugar, e eu olho o novo mundo harmonioso – sim, alguns querelas aqui outras ali – onde um governo único protege as pessoas e aquele velho ranço de ‘nós contra ele’ morreu dando lugar ao ‘NÓS’, os habitantes do planeta Terra.

Eu que queria morrer aos 20, entendo agora porque tudo me parecia de outra cor e forma. Mas nem todos aprendem, compreendem ou aceitam. Não é a idade que me tornou melhor, sábia, foi como olhei para vida e a sorvi.

E eu queria morrer aos 20…

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