Silêncio

Através da janela assisto um mundo do qual não faço parte. É estranho estar e não ser, não pertencer mesmo que respeite as regras, se curve as intenções de outros ou simplesmente se cale. Eu me calei.

Calei diante da massa que acenava urrando obscenidades por não ser capaz de compreender a obviedade de um mundo curvado em preconceito, obscurecido em nacionalismo, drogado pela intransigência. As palavras que eu guardava não eram suficientemente fortes e em nada ajudariam a horda ensandecida em compreender. O silêncio foi uma opção, salvaguardar minha sanidade e segurança a escolha clara no momento.

Agora, quando olho a chuva caindo nas folhas das árvores em sua última dança outonal, vejo que o silêncio foi interpretado como concordância, aceitação. O silêncio acrescentou meu nome a multidão sem razão. Tirou de mim a individualidade e humanidade das quais me orgulhava, rebaixou quem sou a algo primal, até mesmo inferior.

O reflexo na janela confirmou o receio de que o silêncio maltratara meu corpo e mente. Eu não era mais aquela que esbanjava coragem no olhar, desafio no sorriso e ironia nas sentenças cortantes. A metamorfose assustou aquela outra que ainda vive dentro de mim. De repente a face tornara-se repulsiva, quase de um inseto rasteiro e impuro. Havia deixado de lado a melhor parte de mim. O silencio quebrou a sólida certeza deixando em seu lugar algo muito menos valioso, o medo.

Tenho medo. Um tipo de receio inexplicável do agora e do amanhã. Como se eu pudesse ser despedaçada ainda mais, como se a transformação pudesse se tornar final e irreversível.

Medo sempre foi um tipo de doença que me acompanhou. Medo na infância da surra prometida, do castigo sem sentido, da privação que não queria enfrentar. Na adolescência foi o medo de não fazer parte, da diferença ser um tipo de contenção da loucura que apontavam. Estrangulei toda essa estranheza em um comportamento defensivo, procurando antecipar cada punhalada e golpe de modo a sair ilesa no final do ultraje, da agressão, da incompreensão.

A maturidade exacerbou o medo, criando cenários imaginários onde a tentativa de ser parte trombava com a rebelião de ser quem eu era. Nunca consegui coordenar esses dois lados o independente e o covarde. Entreguei sonhos em outras mãos, busquei respostas em outras vidas, sujei meu sonhos com o sonhos dos outros e no fim, fiquei assim. Fechada, presa no medo que agora conjugava passado, presente e futuro com intimidade.

E continuo calada. Continuo esperando a próxima vírgula, o ponto final seguinte, o começo de novo paragrafo ou capítulo. Sigo em um tipo de suspensão, de apatia em relação a mim mesma e ao que me cerca. A metamorfose está em suspensão, assim como a vida. Não sei se no final, daqui alguns dias, meses ou anos, finalmente serei o inseto que temo ou o ser humano que escondi. Quem sabe quanto mais cortes, lágrimas, agressões e silêncios irei suportar? Não sei. Não questiono, apenas continuo.

É tolice pensar em suporte, compreensão, amor. Não fui agraciada com nenhum deles. Suportei, compreendi – ainda estou em processo – e amei aqueles que cruzaram o caminho, fossem próximos, distantes ou imaginários. O que tiraram de mim foi tudo, deixando essa sensação de que o silêncio apenas me roubou de mim. Uma contradição implícita em nossa sociedade e na estrutura familiar, onde amor e sucesso, beleza e aceitação são condições para suporte, compreensão e amor.

A chuva intensificou agora. A árvore a direita quase não tem mais folhas, sua metamorfose periódica quase completa. O inverno chega, dos outro lado da janela quatro graus Celsius, aqui dento 20. Flashes de quem sou se sobrepõem aqueles que planejei ser. É tarde? Neste momento é sensato começar de novo? Buscar as respostas e me posicionar firme diante da multidão? E o medo? Onde o medo irá se eu dedicar reverter a metamorfose tal qual as árvores fazem entre o inverno e o verão?

Não tenho resposta. Não quero saber dela agora. Quero apenas lembrar que a morte é o único ponto final onde o próximo paragrafo não será possível.

Um esquilo corre no muro da casa, mais chuva cai em minha janela. O tempo tem andado muito devagar, eu tenho me comportado como se estivesse fora do tempo. O que vou fazer?

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