Preconceito

A mulher passava os olhos pela time line do Facebook em um daqueles momentos nos quais apenas trivialidades passavam diante dos olhos. Alguém oferecia uma nova receita de salgadinhos para festas, outra trazia um novo remédio miraculoso para emagrecer. Passavam também anúncios de material para maquiagem, pintura, culinária. Os anúncios ou compartilhamento de fotos de viagem eram um dos poucos que a atraiam. Música, aqueles que compartilhavam música podiam contar com sua atenção e respeito.

“Maçante, como de repente o mundo se tornou maçante e redundante.” Apoiando a cabeça nas mãos ela respirou fundo. Trocou a tela branca do iPad pelas cores de outono que tingiam o lado de for a de sua casa. “Queria tanto estar no meio de uma floresta, sozinha, rodeada de marrons, amarelos, vermelhos e silencio.” Ela sempre queria o que não podia ter, tinha responsabilidades demais para deixar toda a vida de lado e sair sem rumo, sem nada, nua pelo que restava de sua vida.

“Convencional, eu sou convencional.” Sim, ela era tudo isso. Convencional, conservadora, covarde. “Os três ‘Cs’ que acabam com qualquer sonho.”

O primeiro sonho pereceu de uma fatalidade. Morando em um país em desenvolvimento, as oportunidades de estudo eram limitadas. Ainda mais para uma mulher sem dinheiro e sem amigos. “Entre a bio-engenharia e a realidade, acabei me enterrando na eletrônica.”Mais que um enterro, foi uma tortura engendrada lentamente por um grupo de velhos machistas. Os professores não colaboravam e os colegas insistiam que ela estava por lá apenas para “arrumar marido”.

Curiosamente, não havia sido a primeira vez que enfrentara o preconceito de sua condição de mulher. Antes mesmo de compreender o sentido, seu pai deixara claro que ‘meninas não deviam brincar com meninos’, caso o fizessem seriam punidas.

Depois, um pouco mais tarde, aquilo que a atraía; livros, música, história, ciência, seria outro degrau reafirmando o lugar de uma mulher no mundo. A paixão por conhecimento lhe garantiu o apelido de “esquisita”, tornando uma vida que poderia ser completa e feliz, num retalho de risos e lágrimas. Onde aqueles que deveriam amá-la eram os que a puniam.

A universidade foi outro campo de batalha, vencido parcialmente pela persistência e astúcia. Os inimigos atacavam em diferentes frentes. De um lado a família, de outro os colegas e em um terceiro os professores. Era uma guerra injusta, onde ela não poderia vencer. Quando passou essa fase, o resultado foi um empate.

A graduação trouxe outra realidade, o preconceito do empregador. Por três anos, quando ainda na universidade, ela tentou um estágio em uma grande multinacional. Por três anos ela esteve entre os três primeiros colocados na seleção, por três anos o lugar foi recusado porque ela era mulher. “Desista, nenhuma indústria irá contratar uma mulher para trabalhar no chão de fábrica.” Desistir. Essa não era uma opção, embora logo depois, pareceu ser a única opção. A vida às vezes gira de ponta cabeça atordoando aqueles que fazerem parte dela. Um dia lá estava a mulher de volta trabalhando naquela mesma empresa – naturalmente não como engenheira.

A surpresa dos colegas com sua eficiência, abriu a opção para a contratação de mais mulheres. Novamente, a paz e o sucesso foram breves. Impulsionada por alguma lealdade a sociedade onde vivia, a família que a criara – mesmo que em total negação de suas capacidades intelectuais- ela cedeu ao casamento. E o casamento chegou e transformou tudo.

Foi nessa etapa que ela conheceu novo tipo de preconceito: o racismo. Sua ancestralidade não era motivo de vergonha, três quartos de seus antepassados haviam migrado da Espanha, um quarto era indefinido, variando de portugueses, franceses e africanos. A cor de sua pele nunca fora um problema. Todos os documentos de identidade da certidão de nascimento ao passaporte a identificavam como branca. Ela sabia que essa era apenas um definição formal. O significado de ser branco não representara uma vantagem ou desvantagem até o momento. Até o momento…

O casamento trouxe novas pessoas para o seu círculo pessoal. Pessoas que ela não escolhera, mas que faziam parte da vidas de seu parceiro – sogra, sogro, cunhada e cunhado – todos voltados a um comportamento social o qual ela não compartilhava. Foi então que os preconceitos começaram.

A cor de pele do pai dela indicava uma herança negra, algo não considerado como informação relevante, passou a ser a unidade de medida, o fator de desqualificação dela.

Indiciada, julgada e sentenciada a viver a eterna culpa de ter em seu DNA algo que não era visto como completamente puro. Ela era negra, e negro para os familiares do marido era o mesmo que ‘lepra’. Contagioso, diminutivo, indesejável, vil. Durante mais de vinte anos sua ancestralidade foi apontada como razão para maltrato e humilhações. “Você deveria agradecer por estar nesta família.” Dizia sua sogra. Agradecer?

Não havia nenhuma possibilidade de gratidão entre eles. Nem gratidão, nem respeito, nem amor. A revolta cresceu dia após dia, sendo fomentada pelo silencio do marido diante de toda perseguição, intimidação e humilhação. No fim, restou pouco.

Agora, sentada na janela, ouvindo pássaros cantar, o sol de outono batendo na janela e as árvores dançando com o vento frio do norte, ela pensa que cada preconceito enfrentado, do relativo a sua condição de mulher (menina) até a sua ancestralidade, haviam destruído todos os sonhos. Cada preconceito foi um buraco negro engolindo um pouco de quem ela era, quem ela seria, deixando no lugar a escuridão.

Ela levantou da poltrona, olhou de novo para a janela. “Nem todas a mulheres enfrentarão os mesmos preconceitos hoje me dia.”, dizem seus conhecidos. “Feminismo não é algo necessário.”, gritam mulheres de classe média que se calam quando o marido assim o exige, algo que ela presenciou recentemente em um restaurante durante o café da manhã.

Ela acredita que precisamos de feminismo mais do que nunca. Um feminismo que suporte a mulher em sua busca de crescer e ser produtiva.Feminismo que suporte outras opções sexuais. Feminismo que suporte minorias – sejam étnicas ou religiosas. Precisamos de feminismo para lutar contra o fascismo que ameaça o mundo – novamente – pois parece que se deixarmos o controle na mão exclusivamente do sexo masculino, vamos acabar todas servindo apenas as necessidades do macho da espécie ou mortas e enterradas por não nos enquadrarmos no mundo deles. Mundo de privilégios, de pele clara e muita falta de humanidade.

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