Ao morto a santidade

Erramos. Viver é uma coleção de erros com alguns acertos perdidos pelo caminho. O ser humano é falível, mentiroso, delirante, egoísta, mas também generoso, carinhoso e criativo. Criamos civilizações, deuses, leis, países e mitos. Edificamos monumentos, guerreamos, criticamos o outro e, algumas vezes, a nós mesmos. No entanto, toda nossa humanidade fica visível, a flor da pele, quando nos deparamos com a morte.

Foi essa misteriosa entidade que nos levou a crer em céu e inferno, reencarnação e espírito, pois para muitos, pensar que este é o começo e o fim não é aceitável, na verdade é enlouquecedor.

A morte fica muito mais próxima quando a pessoa que morreu é um amigo, parente, colega de trabalho. Essa morte, diferente daquelas que ocorrem em lugares distantes do mundo, causadas por guerras (Síria, Oriente Médio), preconceitos (Myanmar), calamidades (Indonesia) mesmo que o numero de mortos seja grande e mulheres e crianças façam parte desse numero; não nos trazem a mesma emoção da primeira. Quando alguém próximo morre estamos cara a cara com nossa própria mortalidade.

Um amigo disse certa vez que a morte não fere quem morreu – óbvio para mim, mas ele é religioso – mas quem fica. “É um peso que se carrega por toda vida.” Quando ele fez o comentário complementei dizendo que, talvez a morte de alguém que conhecemos e convivemos abra um ‘ buraco’ na rotina, com to tempo esse ‘buraco’ vai se tornando uma fresta – que nunca se fecha – e representa a eterna memória de que um dia nós também iremos morrer.

Imagina o pânico! Descobrir sua própria mortalidade na morte de um irmão ou pai, irmã ou mãe. Dar de cara com uma certeza que preferia não ter. Podemos ir além, pois crescemos – muitos de nós – acreditando que após a morte haverá algum tipo de julgamento onde a premiação varia conforme a religião. Existem inclusive aqueles que acreditam em reencarnação, karma, como se a vida neste pequeno planeta num sistema solar em um braço de uma galáxia fosse o campo de teste. Aprovado, você é enviado para um lugar melhor, reprovado retorna e começa de novo.

ATem ainda aqueles que procuram desesperadamente um significado para sua existência. Estar vivo não é suficiente, eles procuram um tipo de sentido maior. Como se para validar o direito deles existirem fosse necessário que essa existência fosse relacionada a um objetivo maior. Sinto desapontar, não é. Nossa existência e randômica, somos resultado do acaso, das engrenagens aleatória do inicio do universo.

Talvez, toda essa procura e desespero diante da morte seja o que nos faz transformar aquele ser querido ou conhecido que morreu em um santo. Na morte todos são perfeitos, imaculados, como se todas as ações erradas de suas vidas fossem varridas para debaixo do tapete e apenas a santidade ficasse visível. O pai que nunca foi capaz de ser pai, transforma-se no educador, exemplo da paternidade que deve ser seguida. O pai alcoólatra, dado a violência doméstica, macho capaz de estragar qualquer festa com seu comportamento agressivo e infantil, se transforma em exemplo a ser seguido. Enfim, as críticas evaporam, as más ações desaparecem, restam os comentários sobre sua docilidade, sua capacidade de amar (mentira) e acima de tudo seu exemplo de ser humano positivo, construtivo, carinhoso.

E por que assim fazemos? Pelo simples fato de que esperamos que façam o mesmo por nos. Que na morte nos validem como seres perfeitos, prontos para o paraíso, seja lá onde ele for. Infelizmente, a morte é apenas um sinônimo para o fim. Não o fim de nossos elementos básico – nossos átomos retornam a fazer parte do planeta, do universo – é o fim de quem somos agora. O fim do acaso mo qual duas celulas se encontraram criando uma terceira. Esta terceira foi se multiplicando e após algum tempo lá estávamos nós. O resto, quem realmente seremos, é uma combinação do que nossos ancestrais, pais, parentes, amigos e sociedade foram ou são . Alguns escapam dessa rotina e se transformam em quem eles desejam ser, outros simplesmente repetem, como dizia a letra da música, repetem os mesmo caminhos dos pais.

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