Simplesmente Diferente

Domingo, meu filho acaba de acordar. Um beijo e o pedido para que eu prepare o café da manhã. cereal e um copo de suco de laranja. Ele os consome assistindo vídeos no YouTube. A lareira está acesa, faz frio em Londres. Estou longe do Brasil há mais de seis anos. Longe do inferno de ter que provar a todos que eu era uma boa mãe, ter que aceitar críticas de quem, julgando-se muito experiente, preferia transferir a responsabilidade apenas para mim. Eu era o espinho na vida de meu filho. Ele não correspondia as exigências da escola, culpa minha.

Elas, digo elas, porque a maioria eram de profissionais do sexo feminino, nunca perceberam que, os acessos de raiva de meu filho, a constante necessidade de suporte da professora, a pouca interação com colegas de classe, a dificuldade na escrita, era um sintoma. Como a maioria das instituições educacionais do Brasil, quando um aluno apresenta algum problema de aprendizado ou comportamental, imediatamente passam a escrutinar as relações familiares. Chegam a fazer questões extremamente pessoais, julgando e transferindo a responsabilidade pelo desempenho -escolar da criança para os pais – são superprotetores ou são indiferentes – não existe outra alternativa, pelo nenhuma que comprometa a escola e os ditos especialistas com um diagnóstico sério do que possa estar ocorrendo.

O mito dos pais divorciados ou de que o relacionamento dos pais possa ser considerado um fator predominante no desempenho escolar parece ser típico de países onde, o relacionamento pessoal, sobrepõe o profissional. Durante cinco longos anos, tive minha vida pessoal investigada, fui pressionada a mudar comportamentos, não apenas pelos profissionais de educação, mas por terapeutas, psicólogos, neurologistas, pediatras. Profissionais com extenso currículo, alta recomendação e acima de tudo, com valor de mercado estratosférico. Em cinco anos, apenas observei meu relacionamento com meu marido deteriorar, o desespero com a situação na escola crescer, e por fim obtive alguns diferentes diagnósticos. Nenhum seguro, nenhum lógico, nenhum cientifico.

Meu filho passou por todos os exames neurológicos, auditivos, psicológicos possíveis. O pediatra me culpara pelo atraso na fala, eu era superprotetora, assim ele não precisava se comunicar, insistia que eu o colocasse na escola (aos 2 anos de idade). A primeira fonoaudióloga, insistia em minha culpa, e quase ocasionou um acidente ao insistir que meu filho de dois anos fosse deixado sozinho sem supervisão em um local estranho, próximo a uma avenida. A escola dizia que a culpa estava no meu perfeccionismo, na insistência de que meu filho fosse um gênio (enquanto eu apenas queria que ele fosse feliz, gostasse da escola e de aprender), acrescentaram a isso os problemas pessoais entre meu marido e eu. Ponto, a desculpa para a ineficiência deles estava montada. A nova fonoaudióloga, conseguiu trazer a expressão oral para meu filho, no entanto não percebeu o ponto chave que impedia seu desenvolvimento. A terapeuta dizia que meu filho tinha um intelecto privilegiado, com maturidade de criança de 12 ou 13 anos (ele tinha 7). O otorrino insistia em problemas auditivos, apenas um psiquiatra cogitou acreditar que o problema era outro.

Somente em 2011, quando mudamos para Londres longe da maratona de acusações, diagnósticos errados, meu filho ficou livre. Crescendo com paixão pelos estudos, sendo reconhecido pelos professores e incentivado por colegas que acreditam nele, da mesma forma que eu sempre acreditei. O diagnóstico de Síndrome de Asperge foi um alivio. Compreender sempre é melhor do que especular.

Apenas um ponto incomoda ainda. São os profissionais que deixei no Brasil, aqueles que torturaram meu filho com avaliações que deixavam claro qual era o problema se fossem observadas por competentes educadores, que me culparam de tudo e se recusaram a ajudar. Os terapeutas, psicólogos e neurologistas de alto custo, que não perceberam o que eu, havia percebido quando ele tinha dois anos. Ninguém, nenhum profissional, foi capaz de ver meu filho como um ser humano. Estatísticas, receitas prontas para avaliação e acima de tudo, preconceito foram determinantes para que uma criança, por cinco longos anos, fosse levada a uma situação mental de estresse, medo, desinteresse e perda total de autoestima. Essas pessoas nunca se desculparam. Nunca admitiram sua falha, ainda hoje, vejo posts com comentários sobre como são perfeitas, educadoras competentes e criativas. Elas nunca o foram para meu filho.

Educação é essencial, mas precisa de pessoal realmente preparado para levar o processo ao seu objetivo: formar adultos capazes de analisar, criticar e entender baseados em informação (dados).

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