Bilbos, Frodos e o Brasil

Sentei perto da janela que permite ver o jardim. Este jardim não tem flores, mas algumas árvores e uma casa plantada no solo. Eu a chamo hobbits’ house, não é igual, mas faz lembrar de Tolkien e como ele nos via, nós humanos, ingênuos, egoístas, mas capazes de grande gestos quando necessário. Foi assim que Bilbo acabou na companhia dos anões e Frodo carregando o peso que lhe foi deixado: salvar o mundo.

Penso que o mundo sente falta de Bilbos e Frodos, como de grandes mentes capazes de se indignar diante da trajetória que nossa sociedade está tomando. Sinto que estamos na iminência de uma grande revolução, mas não uma boa revolução. Extremistas tem tornado o ambiente tão agressivo deixando a maioria dos sensatos em silêncio. É um quadro que já vimos – pelo menos alguns de nós – ou lemos. No entanto, esse extremismo de ‘nós’ contra ‘ eles’ tem crescendo em todo mundo.

Os dedos sempre apontam para a Europa, onde o passado ainda está muito próximo à superfície. Lembranças de monstruosidade que continuam a infligir dor naqueles que tem memória.

No entanto não é somente a Europa está sendo invadida por ideias que a muito deveriam ter sido enterradas e consideradas frutos de mentes doentes. Países como Estados Unidos e Brasil estão sendo absorvidos e contaminados pelas mesmas ideias e preconceitos.

Judeus, negros, asiáticos passaram a ser alvo de todo tipo de abuso. Considerados outra raça – conceito inexistente quando aplicado a espécie humana – estes grupos tem sido apontados como responsáveis por todas as mazelas que anos de governos autoritários, corruptos e irresponsáveis criaram.

Vejam o Brasil. Este é um ano de eleições, se você passar os olhos pelos candidatos verá que nenhum deles será capaz de resolver os problemas sociais e econômicos do Brasil. Por quê? Porque todos prometem fazê-lo de forma não dolorosa ou pior, muitos candidatos criam plataformas falsas para fomentar os preconceitos, medos e superstições de um povo mau educado, que tem sido desrespeitado desde que o Brasil se tornou uma República.

Não são homossexuais, transsexuais, ou seja qual for a preferência sexual individual de cada um que degradam uma sociedade. Não é o aborto, tão condenado no Brasil – um país que permite milhões de crianças viveram não apenas na pobreza mas na escuridão da falta de uma educação eficiente – responsável pela decadência da sociedade. Ao contrário, estudos comprovam que a legalização do aborto promove melhores condições para que a sociedade se desenvolva em direção a igualdade , diminuindo as incidências de crimes e fomentando o crescimento. Mas, os povo brasileiro está sendo manipulado pela igreja e o estado dizendo que aborto é assassinato. Permitir crianças serem abandonadas nas ruas, mendigando, morrendo, sofrendo abusos isso sim é humano, é a vontade de deus.

O Brasil precisa se desvencilhar do poder da religião. Aqueles que usam a religião para controlar e ganhar poder o fazem apenas em benefício próprio. Nenhum Estado é justo se suas leis e sociedade se ancoram nos dogmas religiosos para ser justa e igualitária.

Os governos se tornaram nossos proprietários. Nos controlam através de promessas e da mídia, do medo e do preconceito. Quando deixei o Brasil, muçulmanos era bem-vindos, cortejados, considerado iguais. Hoje leio os mesmos rompantes da extrema-direita Europeia e Norte-Americana em português. Ignorância leva a sociedade a copiar inclusive os preconceitos.

O Brasil é um pais violento. Ninguém pode negar esse fato diante das estatísticas de homicídios. O Brasil e um patriarcado. Outro fato que não pode ser negado visto o número de mulheres que são abusadas, estupradas e mortas anualmente. O Brasil precisa mudar.

Mudar como? Menos quantidade e mais qualidade nas leis do Estado; mais independências para as regiões, menos parlamentares, mais qualidade e liberdade na mídia . O Brasil precisa de menos para ser mais.

Numa conversa um brasileiro me disse que o Brasil nunca terá jeito, já que um pais criado sob mentiras – o descobrimento, Tiradentes, independência – gerenciado por extrativistas em primeiro, depois por donos de terras e políticos nunca investiu no bem estar do povo – saude, educação, justiça. O povo cresceu acreditando em milagres, jeitinho e, convenhamos, naquele ditado que ‘roubar não é pecado se ninguém vê’ ou ‘todo mundo faz’, são esses pontos de vista que destroem a cultura, a sociedade e o futuro do país. No fundo, mesmo com todos os dedos apontando à esquerda ou à direita, os políticos brasileiros são todos sócios quando se trata de obter benefícios do dinheiro do Estado. Já a população que se indigna com toda a ‘roubalheira’, continua acreditando na ‘lei do Gerson’, nas promessas de políticos e comprando todas as mentiras que lhe são vendidas.

Pode parecer ultrajante que um preso possa ser candidato a presidente do Brasil, mas no fundo ele represente perfeitamente a sociedade em que o brasileiro vive.