Nem toda estória de amor tem final feliz

“Nem toda estória de amor tem final feliz.” Li a frase no Facebook e ela ficou martelando em minha mente por uma semana. À noite quando o silêncio tomava conta da casa e a mente ficava livre de outras distrações, a frase continuava a pulsar como os restos de uma explosão. Minha primeira aproximação do problema foi questionar o significado da palavra ‘amor’.

Amor foi algo que nunca geriu as uniões da nobreza, mesmo que a história tente nos dizer que ocasionalmente uniões por amor existirão, na verdade são apenas idealizações, mentiras brancas para incrementar as qualidades de um nobre. Sinceramente, quando lemos sobre a vida na Idade Média, amor é algo que só aparecia quando o assunto era religião. Amor a Deus é uma constante e sacrifícios são exigidos para que esse amor seja reconhecido.

Por outro lado, o amor entre parceiros (não importa o sexo deles), sempre vem acompanhado da ilusória descrição que o amor ganha em filmes, novelas ou livros. A descrição do amor como algo benevolente, generoso, infinito ‘gruda’ em nossa vida e ficamos envolvidos não em desenvolver um relacionamento saudável com nossos parceiros, mas reproduzir a perfeição que nos dizem ser amor.

Entre um pensamento e outro, passei a considerar o que atrai uma pessoa a outra. No começo são as semelhanças. Mesmo gostos musicais, alimentos, perfumes, filmes acabam criando um ambiente agradável onde o sentimento de prazer pela semelhança do outro se desenvolve. Mas e depois, quando essa instância de ‘ser parecido’ passa a incomodar? Quando vemos no outro aquilo que não apreciamos em nós? Segue então, a segunda razão pelo qual somos atraídos pro alguém, as diferenças. Aquelas que nos encaixam complementando o relacionamento, trazendo dinamismo e novidades à nossa vida.

No entanto, novamente o amor encenado na arte não corresponde ao amor vivido. O encaixe é apenas aparente. Em um relacionamento saudável continuam a existir dois. Dois que tiveram experiências diferentes na vida, dois que cresceram sob diferentes regras, conceitos e perspectivas do mundo. Esses dois não podem se ver como um, caso isso aconteça alguém sairá ferido, pois nada fere mais do que termos nossa personalidade sufocada pelo outro.

Existe porém um grupo de pessoas que se recusa a criar sua parte na parceria. Seria como que manter-se intacto, com as mesmas crenças, comportamentos, estilos de quando sozinho trouxesse a segurança de que as mudanças não irão deturpar, alterar drasticamente sua essência. Não e fácil racionalizar parceiras – casamento, viver junto, namoro, noivado – todos nos cobram que o relacionamento seja vivida com paixão e sentimento, a parte racional deve ser deixada de lado. Amor não tem razão.

Amor tem razão sim. Ela está em nosso desejo de sermos melhores – lebram? Duas cabeças pensam melhor que uma -, de nos renovarmos no outro, de termos não um espelho mas um espaço de diálogo sobre quem somos – nossas dúvidas, medos, singularidades e esquisitices – o amor que temos é por nós mesmos e quando esse amor é real e racional fica mais fácil criar um relacionamento onde dois amores se unem para criar um terceiro, o amor pela parceria. Não é o filho, o apartamento compartilhado, o sexo ou os momentos de felicidade que fazem o amor pela parceria sólido. A solidez desse amor está em aceitar as mudanças, compreender as diferenças e arriscar na criação de algo melhor do que você e seu parceiro são individualmente. Não é fácil!

Nada é fácil quando se trata de ralacionamento, como nada é complicado. É necessário nos preocuparmos menos com nosso status no Facebook, o selfie que causa inveja em todos os que olham a prefeita foto do casal – recomento o vídeo para ver como o selfie pode ser enganoso (https://youtu.be/8viCMgv8wjE ) – e mais humanidade, maturidade e racionalidade na criação de uma parceria duradoura e repleta de bons sentimentos, sentimentos que você pode até chamar de amor.

Assim, quando a morte chegar o que prevalecerá será o companheirismo, as risadas, as dificuldades enfrentadas e vencidas (ou não), o choro e a dor com a mesma intensidade que o riso e o prazer. No fim, só então, entendemos e amamos.