Igualdade é o único caminho possível

Tenho diante de meus olhos a estatueta de uma mulher. Ela se veste de cores fortes – vermelho, amarelo, verde, azul – tendo em suas mãos castanholas. Suas curvas generosas e graciosas estão cativas em um dos movimentos mágicos do flamenco. Os babados de seu vestido caem em cascata atrás de seu corpo, dando a ideia de fluidez e solidez ao mesmo tempo. Curioso, gracioso, significativo.

Enquanto olho a estatueta leio nos jornais sobre o referendo cujo tema é a legalização do aborto que acontece hoje, 25/05, na Irlanda, em duas outras duas headlines leio sobre a iminente prisão do produtor de Hollywood Harvey Weinstein por crime de estupro e a babá que foi morta e queimada por um casal francês vivendo em Londres. O contraste entre a graciosidade da estatueta e a vida real de uma mulher no presente momento choca, preocupa e ao mesmo tempo traz esperança.

O aborto deve ser uma decisão da mulher, não é possível se ver esse tópico de outra forma. Aqueles que são contra, normalmente nunca tiveram que enfrentar os motivos que levam uma mulher a abortar. Curiosamente, esses mesmos pregadores que dizem suportar a vida, são aqueles que reclamam do alto número de nascimentos em determinadas etnias, se negam a apoiar um estado mais social que suporte mulheres e crianças nascidas na pobreza. São os mesmo que recusam saúde gratuita para crianças, jovens e adultos que nasceram com desabilidades.

É preciso entender que nenhuma mulher toma a decisão de abortar por motivos frívolos. O procedimento apesar de seguro quando feito em clínicas, ainda representa uma invasão ao corpo da mulher. Não compare aborto a tirar um dente ou uma cirurgia plástica. Existem intensos e complexos sentimentos em contradição dentro da mente feminina quando essa opção é escolhida. Caso a mulher seja religiosa, esses conflitos são ainda maiores. No entanto, a decisão quando tomada é sustentada pelo olhar para o futuro, para todas as dores, riscos e dificuldades que estarão presentes na vida de ambos  – mãe e criança – no futuro. Sofrimento não é uma benção, não seja tolo em acreditar que existe redenção no sofrimento, na morte lenta. Por que não permitir aborto a uma mulher que sofre estupro? Por que não permitir o aborto em casos de risco de vida para a mulher ou defeitos genéticos no feto? Por que a mulher precisa dessa permissão é minha grande pergunta.

Aborto é uma realidade. O ato de abortar acontece à milênios, o que ocorreu com o tempo foi a tomada de posse sobre o corpo e a decisão feminina de quando e como fazer o aborto. Mulheres foram empurradas para clínicas clandestinas de higiene precária, profissionais duvidosos ou, mais dramático ainda, compelidas a praticar o aborto elas mesmas; consequência de milênios de hipocrisia, controle religioso e por fim do estado. O resultado é esse desespero que reclama  vidas femininas, traumatizando e marcando  mulheres e muitas vezes filhos.

Hipócrita é quem se diz próvida e não batalha por melhores condições de habitação, saúde e educação para as mesmas vidas que estão pleiteando salvar. Disfuncional a socialidade que obriga uma mulher a carregar um feto morto por 9 meses ou impõe a ela uma carga econômica e social desproporcional caso tenha que criar um bebê com grave problema genético. Não digo que aqueles que escolhem manter a gravidez de uma criança com problemas genéticos estão errados, apenas afirmo que essa escolha deve ser pessoal, não do Estado, muito menos da Igreja.

O Estado e a Igreja não irão auxiliar na manutenção dessa criança. Eles não estarão presentes nos momentos de dificuldades, escassez de recursos ou darão suporte mental-emocional a mãe. Não, eles apenas legislam sobre seu corpo e depois a deixam pagar pela decisão que eles tomaram.

Eu tenho um filho Autista, sei muito bem como a sociedade e suas instituições tratam uma criança considerada ‘diferente’. Mesmo sabendo de toda dor, luta e perdas eu não teria abortado meu filho caso tivesse descoberto seu autismo quando grávida. Mas essa seria minha escolha, apenas minha.

Essa possessão que o Estado tem sobre o corpo da mulher se reflete também no caso de abuso doméstico e estupro. As leis e aqueles que são responsáveis por policiar seu cumprimento, tendem na maioria das situações transferir o ônus do estupro ou da agressão para a mulher. Abusos domésticos e estupro fazem parte daqueles crimes onde a vítima é tratada muito mais cruelmente do que os criminosos. Veja o caso do movimento #MeToo; quantos não foram os comentários tentando denegrir a integridade, caráter e veracidade daqueles que vieram a público falar dos abusos sofridos. Abusos que são cometido todos os dias em escritórios, hospitais, companhias, governos, centros religiosos em todo mundo e que nunca serão noticia de jornal simplesmente porque as mulheres temem perder seu emprego, sua credibilidade pois certamente serão jogadas aos leões que vasculharão  suas vidas privadas em busca de uma justificativa para o abuso/estupro.

A mulher galgou degraus dentro da sociedade no que tange a empregabilidade. Hoje existem mulheres em todos os níveis de uma organização, no entanto, o número de mulheres no topo é quase insignificantes – sejam em companhias privadas ou governos – a mulher ainda continua tendo que batalhar em dobro para receber a mesma oportunidade que um homem e, mesmo quando consegue ainda perde. Mulheres recebem de 10% a 40% menos pelo mesmo trabalho. Não importa se uma celebridade de Hollywood ou uma desconhecida faxineira; quando se trata de salário a mulher sempre perde para o homem.

Em alguns casos, a perda e ainda maior. Na ansiedade de construi uma vida pessoal independente, de galgar degraus que lhe proporcionarão uma vida com melhor qualidade, jovens mulheres entram em posições que cedo ou tarde se mostram perigosas. É o caso da babá (au pair) que foi morta e queimada por um casal francês em Londres.

É perceptível como apesar da aparente liberdade que as mulheres ocidentais possuem, existe um enorme caminho a ser percorrido antes da igualdade prevalecer. Por exemplo, um estudo de 2017, mostra que uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, onde cerca de 25% desses crimes ocorrem apenas pelo fato da vítima ser mulher – femicídios. O mesmo estudo mostra que o número de estupros no Brasil é de 135 por dia. Mas não só no Brasil isso ocorre, 85 mil mulheres são estupradas todos os anos na Inglaterra e País de Gales. Meio milhão de adultos são sexualmente assaltados por ano, também na Inglaterra e País de Gales. 1 em 5 mulheres entre 16 – 59 anos já experimentou alguma forma de violência sexual, sendo que somente 15% reportou o crime a policia (Inglaterra e País de Gales)

O mais curiosos sobre o estudo inglês está em como publico percebe a mulher que sofreu estupro: 33% das pessoas acreditam que uma mulher que flerta e parcialmente responsável pelo estupro. Isso vale para aquelas que bebem álcool, se veste de maneira provocativa…

Existe em todo mundo lugares onde a situação da mulher é ainda mais vulnerável do que no Brasil ou Inglaterra. No entanto, para que a tendência a igualdade se acelere, é necessário que os países criem ambiente para que os abusos sofridos pelas mulheres –  econômico, sexual, psicológico – seja eliminado. São os países desenvolvidos que precisam continuar a criar mecanismos onde no final, homens, mulheres e qualquer outro gênero sejam vistos apenas pelo que eles são: seres humanos.