Dois Barcos

Pássaros anunciavam Apollo em sua carruagem de fogo. O manto negro da noite se tingia em amarelos e alaranjados. Novo dia, mais uma manhã. Meu pai e eu caminhamos em direção ao mar. O silêncio brincava com as ondas e o vento de inverno fazia-se presente em todo lugar. Vestido em cinza, meu pai mantém o silêncio que sempre existiu quando estávamos juntos.

Pensei como amar era fácil quando se está longe, enquanto observávamos uma luz distante e os primeiros raios de sol tingindo a sombra de ontem. Dois navios cortavam a linha do horizonte, desfazendo o mito do fim do mundo. Eu ainda jovem, mas estava chegando a maturidade, ele deixando a maturidade para trás e abraçando a possibilidade do fim. Olhamos um para o outro e não sorrimos. Ele nunca me considerou a pessoa certa para dividir um sorriso. Nós havíamos compartilhado muitas coisas até então: medo, solidão, raiva, mas nunca falamos sobre esses assuntos, não havia espaço para nós. Entre pai e filha era apenas vazio.

Era eu a errada por permanecer em silêncio quando todos esperavam gritos? Era ele o errado por me silenciar a cada tentativa, buscando explicar com seu olhar a falta de empatia que sentia por mim? Não sei. Como aqueles barcos na linha do horizonte, nós desfizemos o mito da paternidade. Não havia amor para mim nele, eu aprendi a desama-lo, permitindo meu amor fugir para outro lugar.

Voltamos para casa no mesmo silêncio do caminhar até o mar. Ele com seus pensamentos no futuro que talvez não pudesse viver. Eu com o olhar no passado que não podia esquecer. Éramos dois barcos passando pelo amanhecer sem sequer ver ou tocar um ao outro.

No começo foi difícil essa distância próxima, era como se a capa da invisibilidade me cobrisse dos pés à cabeça. Invisível era um pequena palavra para minha ausência em meu pai. Sempre pensei que um dia tudo ficaria bem; e que em uma outra manhã com outros pássaros e sem silêncios, nós pudéssemos liberar as palavras que foram se acumulando ano após ano.

Mas a distância física chegou primeiro. Eu não podia mais esperar, era minha vez de explorar a maturidade das decisões independentes e eu escolhi partir. Longe, tão longe, que esqueci dele, de meu pai carrancudo, rude, frio. Esqueci dos medos e das mágoas. De repente me vi livre e órfã.

Curiosamente a vida completou-se, e tal qual os barcos no horizonte, meu pai desapareceu. Agora, eu não tinha mais a ansiedade de querer o amor, entendimento, respeito de alguém que deveria ter todos esses sentimentos por mim. Agora, era eu e somente eu.

Aqui estou de novo, na mesma praia daquele dia frio, quando tudo ficou claro e nada foi explicado. O silêncio agora é quebrado pelas gaivotas sobrevoando o mar e as ondas quebrando furiosamente. Não tenho mais um pai físico, o pai de amor nunca tive. Pessoas estranham como posso ser tão fria diante da morte. Digo que aprendi com a frieza recebida na vida.

Eu ainda estou aqui, ele não mais. Para alguns foi o pai que não foi para mim, para mim o desconhecido que nunca consegui compreender. Sou agora um barco cruzando a noite sozinha em busca do que perdi, do que meu pai levou de mim.