Woman’s song

Eu sou uma casualidade; um espírito enjaulado dentro de um corpo de mulher, um ser criativo, arrojado e inspirado, mas estrangulado, silenciado pela visão que a sociedade tem do que é ser uma mulher. Uma visão estabelecida há séculos, há milênios e que embora aparente ter mudado, continua colocando em meus ombros um peso quase impossível de ser carregado.

Eu sou criticada quando faço escolhas. Eu sou punida quando me apaixono. Estou condenada a ser quebrada em dois se eu tentar ser uma profissional e mãe. Me culpam por incitar o desejo nos homens. Morro em guerras que não posso controlar, opinar, sequer lutar. A cada escolha que faço sou castigada pelos estereótipos, etiquetas e comentários que me perseguem.

O destino que foi decidido em minha concepção, me tirou o direito a uma vida humana completa. Aprisionaram no dever der ser filha, esposa e mãe; não me dando espaço ou direito a hesitação. Esses papéis devem ser vividos sem medo, sem dúvidas, sem desejos.

Pregando a modernidade, o avanço social, me deixam trabalhar. Posso ser professora, médica, pilotar um avião, em alguns lugares até mesmo ir a guerra. Mas posso ter uma opinião? Não! Bete Davis disse certa vez: “Quando um homem dá sua opinião, ele é um homem. Quando uma mulher dá sua opinião, ela é uma cadela.” Não pretenda ser isto um exagero. Observe o mundo a seu redor e confirme o fato de que se uma mulher decide ficar só, ela o faz porque é fria, frígida. Caso a mesma escolha seja feita por um homem, ele é visto apenas como um solteirão que não deseja que nenhuma mulher se intrometa em sua liberdade.

Eu recebo menos dinheiro pelo mesmo trabalho e preciso provar a cada instante meu valor. Crianças? Eu tenho que criá-los sozinha se decidir tê-las; mesmo vivendo com um parceiro ainda é visto como minha obrigação cuidar das crianças. Mas se a minha escolha não é ter filhos, então sou rotulada de “egoísta”. Meu corpo não me pertence, mas sim ao governo, a religião, à sociedade. Eu posso ser estuprada e ainda ser responsável pelo ato repugnante que foi imposto a mim. Um homem é estuprado e o mundo se levanta em ultraje.

Sou condenada a viver em um relacionamento abusivo porque nenhuma lei me protege física ou economicamente. Como manter meu filhos e a mim mesma se meu salário é até 40% inferior ao de um homem. Sou venerada quando cumpro o papel escrito pela sociedade, e expurgada quando falho.

Meus professores me vêm como um desperdício de tempo … afinal, irei me tornar a esposa de alguém um dia … por que gastar esforços tentando me ensinar alguma coisa? Eu tenho que trabalhar duas vezes mais duro, a cada passo tentando dissipar a descrença que todo mundo tem sobre minhas habilidades.

Eu sou uma prostituta se seguir meus desejos; uma cadela caso não permita que outros tenham seus desejos satisfeitos através de mim. Eu sou responsável por todos os pecados do mundo. Eu sou o demônio, o anjo, o defensor, o que cuida, o professor. Sou incompetente, ingênuo, sou menos que um homem, às vezes menos que uma vaca. Existem lugares sou vendida por dinheiro, terra, gado ou poder. Como mulher devo cobrir meu rosto para ser julgada pura. Ou então, me vestir como uma dama para ser respeitada.

Eu tenho tantos “devo” em minha vida, envelhecer apenas adiciona mais um. Na maturidade devo me comportar como uma mulher madura. Preciso me acalmar esperando pacientemente pela morte. Eu devo… e apenas isso, devo…